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Vitória de Francis Ngannou sobre Stipe Miocic pode reacender esperança de franceses na luta pela legalização do MMA

por: Leonardo Fabri
em 9 de Janeiro de 2018


Uma vitória do camaronês radicado na França Francis Ngannou sobre Stipe Miocic no próximo dia 20 pode mudar os rumos do MMA no país europeu. Pelo menos é o que acredita o respeitado treinador francês Daniel Woirin, que voltou ao país de origem depois de treinar grandes lutadores pelo mundo, como Anderson Silva e Lyoto Machida, e agora milita na luta pela legalização do esporte (assista no vídeo acima em inglês).

“A gente torce para que uma vitória do Francis Ngannou nos ajude na nossa batalha pela legalização do MMA aqui na França. Voltei para Paris, lidero uma grande academia aqui em parceria com a Venum (marca brasileira de artigos de artes marciais) e estamos promovendo esta campanha”, disse Woirin.

Atualmente, por influência da Federação de Judô, o governo francês proíbe a realização de competições de MMA no país, permitindo golpes traumáticos apenas na luta em pé, e condenando veementemente o duelo dentro de jaulas.

“Eles são totalmente contra a utilização de cages, por acharem agressivo, selvagem. O treinamento de MMA não é proibido, mas as competições, sim. Portanto, para os lutadores franceses lutarem, eles têm que ir para países como Bélgica, Itália, Rússia e Ucrânia”, explicou.

Confira abaixo o bate-papo com Daniel Woirin:

PVT: Qual órgão proíbe o MMA na França?

DW: O próprio governo francês. A Federação de Judô é muito influente, muitos membros do governo são adeptos do Judô.

PVT: Qual o motivo que eles alegam? É o real motivo ou existe algum interesse não declarado?

DW: Eles são contra golpes traumáticos no chão, permitem apenas golpes em pé e movimentação no solo. Também são contra cages, por acharem muito agressivo, selvagem. Lutas aqui só são permitidas dentro de ringues de cordas.

A Federação de Judô tem medo de perder adeptos para o MMA. Inclusive, os próprios atletas de Judô franceses são proibidos de praticar MMA. Caso pratiquem, eles são expulsos da Federação.

PVT: Como os lutadores franceses fazem?

DW: O treinamento de MMA não é proibido, mas as competições, sim. Portanto, para os lutadores franceses lutarem, eles têm que ir para países como Bélgica, Itália, Rússia e Ucrânia.

PVT: O povo francês costuma assistir lutas de outros países, pela internet, por exemplo? Como o fã francês faz para acompanhar os grandes eventos de MMA?

DW: Na França a gente pode assistir pelo canal por assinatura Combat Sports. Embora seja proibida a realização de eventos de MMA, a transmissão não é.

PVT: O MMA está cada vez maior na Europa. Os grandes nomes do MMA são conhecidos pelo público francês?

DW: O nome do MMA europeu do momento é o Conor McGregor, e ele é conhecido, sim, aqui na França, mas os brasileiros são mais. Wanderlei Silva, Maurício Shogun e Lyoto machida têm mais apelo por já terem vindo aqui ministrar seminários em parceria com a própria Venum.

PVT: Dá para ter alguma noção do impacto da legalização do MMA na França?

DW: Seria muito legal para desenvolver o esporte aqui. Começaríamos com lutas amadoras, para desenvolver atletas e arbitragem, ajudaria muito no crescimento. O nível de treinamento aqui está cada vez maior, mas a gente não tem lugar para lutar. A gente precisa disso para mostrarmos a nossa força, o nosso talento.

PVT: Quais as principais dificuldades que vocês estão encontrando além das próprias autoridades?

DW: A primeira dificuldade é pedagógica. As pessoas que não conhecem, julgam nosso esporte como se fosse uma briga de rua. A gente está tentando levar informações para o público, mostrar que é um esporte profissional, que possui regras, é seguro. Para se ter uma noção, muita gente aqui ainda acha que os eventos do UFC ainda são como as primeiras edições, sem regras, como antigamente.

A segunda, está ligada à influência dos outros esportes, como Karatê e Judô, que como já dito antes, impedem o desenvolvimento do MMA na França por medo de perderem associados.

PVT: E o que deixa vocês mais esperançosos?

DW: A esperança é ver que atletas e treinadores estão se mobilizando. É remando que se faz o barco avançar. A gente torce para que uma vitória do Francis Ngannou nos ajude na nossa batalha pela legalização do MMA aqui, estamos firmes na campanha.