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UVF 6: Relembre o primeiro confronto entre Jiu-Jítsu e Wrestling sem vantagem na balança

por: Marcelo Alonso
em 16 de maio de 2017

Como o octógono não chegou, os organizadores tiveram que recorrer ao ringue de Santa Rosa de cordas de sisal - Marcelo Alonso

Como o octógono não chegou, os organizadores tiveram que recorrer ao ringue de Santa Rosa de cordas de sisal – Marcelo Alonso

Num momento em que o Wrestling americano começava a dominar totalmente o cenário do Vale-Tudo, com Coleman vencendo três edições seguidas do UFC e seu discípulo Kevin Randleman conquistando o cinturão do evento brasileiro Universal Vale-Tudo 4, o Jiu-Jitsu, pela primeira vez, teria a oportunidade de enfrentar seu maior oponente em igualdade de condições. Carlão Barreto (1,94m / 106kg) e Kevin Randleman (1,78m/109kg) eram os cabeças de chave do torneio eliminatório de 8 lutadores do Universal Vale-Tudo Fighting 6. Mas antes de se enfrentarem na final, teriam que passar por duas pedreiras, cada um. O baú desta edição relembra esta maratona de lutas realizada no dia 3 de maio de 1997 na casa de shows Metropolitan, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

A VIRADA DO WRESTLING

“Sem tempo e sem ponto o Jiu-Jitsu é a melhor arte marcial, independente do tamanho do oponente”. Após vencer 11 oponentes em 3 edições do UFC, Royce Gracie provaria ao mundo a eficiência da filosofia da família Gracie.

Mas depois de 3 anos estudando a técnica brasileira, os grandalhões olímpicos do Wrestling começariam a mudar a história. Esta virada começou no dia 12 de julho de 1996, quando Mark Coleman tratorizou 3 oponentes (sendo Don Frye na final) e venceu o UFC 10. Depois disso Coleman venceria mais sete lutas, completando 3 UFC´s invicto.

Enquanto isso seus colegas de treino Mark Kerr, Tom Erikson e Kevin Randleman mostravam ao mundo a força da luta-olímpica norte-americana em outros eventos mundo afora. “Após aquelas lutas do Gurgel com o Kerr e do Murilo com o Tom Erikson os wrestlers começaram a falar que tinham o antídoto contra o Jiu-Jitsu. Como o Kevin Randleman tinha acabado de ganhar o cinturão na 4º edição do UVF, eu me coloquei à disposição de Carlson para representar o Brasil e o nosso Jiu-Jitsu neste torneio UVF6. Como o Vitor estava se preparando para o UFC 12, fomos todos juntos para Los Angeles treinar com o Carlson”, relembra Carlão Barreto, que foi escolhido como cabeça de chave do torneio junto com Randleman.

DA GRADE PARA A CORDA DE SISAL

Há muito não se realizava um evento deste porte no Rio de Janeiro e, diante da possibilidade de ocorrer na final o maior clássico do Vale-Tudo mundial, pela primeira vez em igualdade de condições, a torcida compareceu em peso. Quase 5 mil lotaram o Metropolitan para empurrar os brasileiros. Para se ter uma idéia, primeira vez em muitos anos, até os rivais da Luta-Livre e Jiu-Jitsu se uniram para torcer contra os wrestlers.

Mas infelizmente a organização não esteve à altura. Os problemas começaram no palco do show. O octógono não chegou de Campos e os promotores tiveram que recorrer ao ringue do falecido professor de boxe Santa Rosa, que já na montagem teve uma das cordas arrebentado, sendo substituída por uma de sisal: “Assim que eu cheguei no ginásio me avisaram que o Coleman já tinha visto a corda e estava treinando os americanos para me jogarem ali, pois ela não resistiria. Lembro que na hora não acreditei, mas foi o que de fato ocorreu. Logo na minha primeira luta, a primeira coisa que o Geza Kallman (130kg) fez foi me empurrar na corda de sisal. A corda não suportou nossos quase 240kg e arrebentou. Eu bati as costas no tablado, dei uma trepada na costela e cai de cabeça no chão com ele em cima de mim. Imagina multiplicado meu peso com o dele, poderia ter sido algo muito mas grave, mas graças a Deus, consegui voltar para a luta”, conta Carlão, que logo no primeiro ataque de Kalman o finalizou com uma guilhotina a pouco mais de 3minutos de combate.

Na sequência seu adversário seria definido em apenas 5 segundos. Tempo que o grandalhão americano Dan Bobish de 150kg demoraria para nocautear o boxer Jucymar Hipólito.

O GUERREIRO EBENEZER    

Ebenezer caiu do ringue em três oportunidades, mas voltou em todas - Marcelo Alonso

Ebenezer caiu do ringue em três oportunidades, mas voltou em todas – Marcelo Alonso

Se Kevin Randleman pensou que teria caminho fácil até a tão aguardada final com Carlão, se surpreendeu logo na primeira luta do torneio, quando enfrentou um dos mais duros representantes do Muay Thai brasileiro, Ebenezer Braga, que já tinha 9 lutas de Vale-Tudo e apenas uma derrota para Jorge Pereira.

Ebenezer tinha operado o joelho há quinze dias, mas decidiu aceitar o desafio. “Lembro que logo na pesagem falei para o Luiz, ‘quer apostar quanto que vão me dar de cara aquele negão mais forte?’ Não deu outra”, relembra o niteroiense, que apesar de representar a Luta-Livre e Muay Thai, levantou até a torcida do Jiu-Jitsu com sua raça. Ebenezer teve participação fundamental no torneio, pois cansou Kevin Randleman em 20 minutos de luta. Depois de arremessar o brasileiro diversas vezes e usar sua conhecida explosão para aplicar golpes duríssimos, o americano venceu na decisão. “Quando ele me derrubava e tentava me atacar com socos, acabava sendo pior para ele, porque os braços dele eram curtos eu revidava com cotoveladas que machucavam muito”, relembra o guerreiro, que na época trabalhava colocando postes em Araruama e, mesmo estando todo machucado, teve que seguir para o trabalho. “Não deu nem para dormir esta noite, tomei uns anti-inflamatórios e parti para pregar meus postes”, conta o primeiro atleta de Cristo do Vale-Tudo nacional, hoje dono de uma fábrica de gelo.

Enquanto isso no mesmo lado da chave o outro representante brasileiro, Mario Sukata, vencia Gary Goodridge, que aos 6 minutos pediu para parar sem nenhuma razão aparente, quando o paraibano o havia cinturado.

SELO DE QUALIDADE CARLSON GRACIE

Depois de aplicar um knock down em Barreto Dan Bobish acabou batendo em um triângulo - Marcelo Alonso

Depois de aplicar um knock down em Barreto Dan Bobish acabou batendo em um triângulo – Marcelo Alonso

Quando esfriou no vestiário, Carlão passou a sentir as dores da costela contundida na queda, mas graças ao excelente trabalho de recuperação da equipe conseguiu voltar bem. “Como me chamaram muito em cima e eu não havia aquecido, o Carlson falou para eu andar um pouco antes de entrar no Bobish, mas eu burramente optei por derrubar logo”, lembra Carlão, que na entrada levou um direto de esquerda e já caiu seminocauteado. “Eu via uns 5 Dan Bobish na minha frente. Mas o grande erro dele foi não esperar, quando ele deu o primeiro soco eu acordei, fiz guarda e acabei pegando ele num triângulo”, conta Barreto, que voltou para o vestiário ainda mais confiante esperando Randleman para a tão aguardada batalha final. “Sentia como se a honra do Jiu-Jitsu e do Carlson tivessem na minha mão, a cada vitória o ginásio vinha abaixo, eram 5 mil pessoas gritando Jiu-Jitsu! Jiu-Jitsu!”, recorda Barreto, lembrando que tinha plena convicção que o mestre seria o seu diferencial. “O Carlson tinha esta coisa de fazer você acreditar que ninguém poderia vencê-lo. Lembro dele falando no vestiário: “Fica tranqüilo, se ele entrar na sua guarda você vai pegar, você finaliza qualquer um”, e aquilo entrava na minha cabeça como um selo de qualidade”.

Se Carlão demorou 7min47s para finalizar Bobish, Randleman se desgastou por quase 12 minutos para vencer Mario Sukata, que havia eliminado Gary Goodridge. O americano derrubou e passou a maior parte da luta na meia guarda tentando socar o brasileiro. Sukata chegou a fechar um triângulo, mas o americano saiu, voltando a golpeá-lo da meia-guarda. A 11min24s o brasileiro cansou e resolveu desistir.

CARLÃO APAGA RANDLEMAN

Após mais de 20 minutos de luta, Barreto definiu o torneio com este triângulo - Marcelo Alonso

Após mais de 20 minutos de luta, Barreto definiu o torneio com este triângulo – Marcelo Alonso

Na atual conjuntura do MMA, vale frisar que, num evento sério, como o UFC, nem haveria final, afinal de contas nenhuma comissão atlética aprovaria uma luta entre o brasileiro que já havia lutado 10 minutos, quebrado uma costela e sofrido um knock down e o americano que já tinha lutado mais de 32 minutos e tinha o olho direito totalmente fechado em conseqüência dos golpes de Ebenezer, mas como o UVF 6 foi realizado em 1997 nas regras do Vale-Tudo, Carlão e Randleman subiram ao ringue diante de uma barulhenta torcida que chegou a jogar um copo de coca-cola cheio nas costas de Coleman, obrigando Belfort e Bustamante a subirem no ringue para acalmar os ânimos. “O Coleman é um grande lutador e merece respeito”, disse Belfort, prontamente complementado por Bustamante: “Quando lutamos lá fora somos bem tratados, se o Randleman vencer, vamos aplaudir”, pediu Murilo.

Depois de negar que havia apagado, Randleman reconheceu a vitória do brasileiro, mas pediu uma revanche - Marcelo Alonso

Depois de negar que havia apagado, Randleman reconheceu a vitória do brasileiro, mas pediu uma revanche – Marcelo Alonso

Ambos chegaram a final totalmente desgastados, começando o combate com muita cautela . Carlão aos poucos foi tomando a iniciativa chutando o oponente, meio que torcendo para que o americano o puxasse para a guarda. Nada acontecia até que em torno de 10 minutos, Barreto puxa para a guarda e começa a atacar com socos e cotoveladas. Bastante desgastado Randleman praticamente não reagia, abrindo espaço para o brasileiro tentar uma omoplata e, logo na sequência, um triângulo que apagou o wrestler. Randleman acordou e não acreditou que tivesse apagado, mas na sequência admitiu a derrota. “Fui prejudicado por terem colocado um ringue ao invés de octógono, me desgastei muito para vencer o Ebenezer que escapou do ringue três de vezes. Não quero dar desculpas. Enfrentei lutadores de alto nível, mas sou melhor que o Carlão e estou pronto para provar numa revanche”, finalizou o americano.

De sua parte Carlão saiu do ringue consagrado. Carregado pela torcida que não parava de gritar Jiu-Jitsu. “Foi um dia inesquecível. Eu quebrei o pé, a costela, a mão, tomei oito pontos no supercílio, fiquei um mês de molho, mas sai daquele ringue com a maravilhosa sensação de dever cumprido. Para mim foi uma grande honra ter defendido o meu mestre Carlson, o Jiu-Jitsu e o Brasil e ter vencido”, finaliza o hoje comentarista do Canal Combate. Um dos heróis do nosso Vale-Tudo.

  • "Como o octógono não chegou, os organizadores tiveram que recorrer ao ringue de Santa Rosa de cordas de sisal - Marcelo Alonso"
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  • "Depois de aplicar um knock down em Barreto Dan Bobish acabou batendo em um triângulo - Marcelo Alonso"
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  • "Depois de aplicar um knock down em Barreto Dan Bobish acabou batendo em um triângulo - Marcelo Alonso"
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  • "Ebenezer caiu do ringue em três oportunidades, mas voltou em todas - Marcelo Alonso"
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  • "Carlão atacou Randleman mesmo em posição de desvantagem - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Após mais de 20 minutos de luta, Barreto definiu o torneio com este triângulo - Marcelo Alonso"
  • "Depois de negar que havia apagado, Randleman reconheceu a vitória do brasileiro, mas pediu uma revanche - Marcelo Alonso"