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Uma visita a Hélio Gracie

por: Marcelo Alonso | @
em 30 de janeiro de 2018

Helio Gracie em seu sítio na Serra Fluminense – Foto: Marcelo Alonso

Algumas reportagens ficam registradas com um carinho especial entre as experiências profissionais de um jornalista. No meu caso, uma entrevista que fiz com Hélio Gracie em seu sítio em Itaipava em 2001 é sem dúvida uma das mais marcantes e complicadas destes 26 anos cobrindo artes marciais, não só pela experiência de entrevistar a lenda em seu habitat natural, mas principalmente pela maneira como tudo ocorreu.

VISITA INDESEJADA

“O que manda campeão. Marcou com alguém?” Não poderia existir ducha de água fria maior. Após dirigir 2 horas entre Rio e Itaipava compartilhando com meu colega fotógrafo Fernando Azevedo a ansiedade de entrevistar a lenda Hélio Gracie (com 86 anos na época) em sua casa e ao chegar lá ouvir o próprio fazer aquela pergunta e ainda emendar de bate-pronto. “Eu não dou entrevistas”.

Ainda tentei argumentar: “Mestre, lembra que liguei para o senhor na sexta passada marcando hoje (terça). Eu sou correspondente da Budo e o Rorion pediu que nos concedesse esta entrevista. Pode ligar para ele, eu espero”. O mestre de fato parecia não lembrar da ligação e, para piorar, argumentou que naquele momento tinha que levar sua esposa ao banco, que fecharia em 30 minutos.

“Vamos nessa Alonso, vamos nessa”, me disse baixinho meu colega constrangido e ainda trêmulo por ver de tão perto um de seus ídolos (seu filho Rickson era o outro). Foi quando tentei minha última cartada: “Mestre, eu dirigi 2 horas porque o Sr. Disse que me atenderia. Não tenho a menor pressa para voltar ao Rio, mesmo que não me dê entrevista, não acredito que vá me negar uma sessão de fotos… Vamos fazer o seguinte: o senhor vai ao banco e eu fico aqui na varanda montando o estúdio para fotografá-lo”.

Acho que nessa hora consegui amolecer o caçula dos cinco filhos homens de Gastão Gracie e Cesalina. “Tá bom, mas eu vou demorar”, respondeu Hélio Gracie… pulando no volante de sua Santana e saindo em disparada com sua esposa.

COMEÇANDO DO CEM QUILOS

Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie – Foto: Marcelo Alonso

Menos de uma hora depois, Hélio Gracie voltou já mais tranquilo e, tendo digerido a ideia das fotos, emendou com a perguntava que costumava fazer a seus convidados: “Trouxeram o quimono ?”. Para minha surpresa, Azevedo, do alto de seus 98kg, respondeu de bate-pronto: “sim, mestre !”. “Então vamos fazer as fotos lá na minha academia”, disse Hélio, saindo em disparada para seu quarto parecendo um garoto de 86 anos e pouco mais de 60kg.

Ao voltar, já de quimono, Hélio pareceu esquecer que estávamos ali a trabalho. Se deitou e imediatamente pediu que Azevedo mostrasse o que sabia. “Pode começar da posição que você mais gosta”. Diante do pedido do mestre, o fotógrafo partiu para o cem quilos, mas num misto de respeito e reverência ao ídolo, congelou. “É só isso que você sabe como faixa azul?”, disse o Gracie com sua tradicional marra provocando o oponente quase 40kg mais pesado.

O mais tenso com toda aquela situação era eu mesmo, afinal, quem tinha aparecido na casa do mestre com aquele troglodita de 98kg? Mas mestre Hélio rapidamente acabou com a minha tensão: virou de quatro, passou a guarda e montou, partindo para uma indefensável chave de braço. “Caramba! O velhinho é muito sinistro!”, disse boquiaberto após dar os três tapinhas Fernando Azevedo, que a partir deste histórico treininho seria conhecido no mundo da luta como Azegracie.

 SEM PAPAS NA LÍNGUA

Terminado o treino, mestre Hélio pareceu se soltar, e após nos apresentar seu sítio e posar para as prometidas fotos, aceitou bater um longo papo comigo:

Como foi a luta entre o senhor e Valdemar Santana?

Foi em 1955. Eu tinha 42 anos e o Valdemar, que era meu aluno, tinha 23. Entrei para lutar com uma infecção séria no ouvido, mas Nem pensei no fato de estar doente ou não, isso pouco me importou. Subi no ringue brigando, a luta durou 3h45. Foi a luta mais longa da história do mundo. Ele pesava 30 kg a mais que eu. Depois dessa luta, a academia Gracie recebeu 125 alunos novos, impressionados com o fato de como um cara magro, com o meu físico, conseguiria brigar durante tanto tempo.

É verdade que na década de 50, o senhor era mais conhecido que muitos jogadores de futebol?

Eu fui o homem mais famoso que esse país já produziu. Nunca houve, no Brasil, alguém que tivesse a minha projeção. Eu fui a pessoa que mais saiu na primeira página do jornal O Globo. Nunca alguém havia conseguido isso.

O que acha das derrotas que os grandes nomes do Jiu-Jitsu vêm sofrendo no Vale-Tudo?

Que grandes nomes? Meus 3 filhos campeões mundiais (Rickson, Royce e Royler) ainda são invencíveis.

O Sr. acredita que o mais leve dos seus filhos, o Royler (64kg), tem condições de vencer um Vale-Tudo contra um gigante destes do Wrestling, como o Mark Kerr (115kg)?

Apenas iria demorar mais tempo, mas o resultado seria o mesmo. Mas se tenho o Royce ou o Rickson com 80 kg para lutar com o Kerr, porque colocar o Royler de 60 kg?

Dizem que Rickson é de longe o melhor da família. É verdade?

 Não. A técnica dele não é superior a dos irmãos. Ele é igual a todos. Todos sabem a mesma coisa.

Muitos dividem a história da família Gracie em três eras: a sua, a do Carlson e a do Rickson. O senhor concorda?

De jeito nenhum. O Carlson foi um bom lutador, muito forte, mas tecnicamente está muito longe do que eu considero um campeão; a única luta de destaque que ele teve foi com o Valdemar Santana. O Carlson sempre foi indisciplinado.

O que acha desta nova geração que vem representando o Jiu-Jitsu, como CarlãoBarreto, Vitor Belfort, Murilo Bustamante?

O Jiu-Jitsu tem crescido muito e ainda vai crescer, o problema é que todo o Jiu-Jitsu que existe, a exceção dos meus filhos, depende da resistência, força e preparo. Meus filhos não dependem disto para vencer. O Rickson, por exemplo, pode enfileirar os melhores do Rio de Janeiro em um só dia. O Royler pode fazer a mesma coisa.

O que acha dos lutadores treinarem mais de uma modalidade, como o Vitor Belfort e até o Mark Kerr vêm fazendo atualmente?

Não vejo inconveniente, o problema é você fazer duas modalidades e não ser bom em nenhuma. O Vitor, por exemplo, se for lutar com o Mike Tyson leva um murro e dorme na mesma hora; o mesmo aconteceria se lutasse Jiu-Jitsu com o Rickson, por exemplo.

O senhor é contra o Jiu-Jitsu de competição?

O Jiu-Jitsu que eu criei não é para competição e sim para uso pessoal, para pessoas que precisam adquirir autoconfiança, sejam elas executivos, mulheres ou crianças.

Como é sua rotina?

Acordo todos os dias às 7 horas da manhã e durmo 10 horas. Não paro o dia inteiro: fico fazendo Jiu-Jitsu ou qualquer outra atividade.

Ainda dá aulas?

Ainda dou algumas aulas particulares, mas cobro caro por isso.

Qual o segredo para chegar aos 86 anos com toda essa vitalidade?

Nunca fui farrista, nunca bebi, nunca fumei, nunca comi fora de hora. Tudo o que eu podia fazer até os 50 anos faço hoje bem melhor. Só sou guloso para as coisas que me fazem bem. Já esqueci como é o gosto da carne e do chocolate: só como peixe, às vezes. Meu irmão Carlos, que criou a dieta Gracie, sempre disse que quem a seguisse teria mais uns 20 anos de vida. E eu acredito. Nunca tive dor de cabeça, dor de barriga, e atribuo isto à dieta.

O que o Sr. pensa do Viagra, esse remédio revolucionário contra a impotência?

Eu não precisei ainda, mas deve ser muito bom para quem precise. Graças a Deus, potência é uma coisa que não me falta. Minha saúde nunca esteve tão boa, não pego gripe há dez anos.

Por falar em sexo, quantas mulheres o Sr. já amou?

Nunca amei nenhuma mulher. O amor é uma fraqueza e eu não tenho fraquezas. O amor é o sexo, que para mim é a necessidade que você usa para procriar. Sempre perguntei às minhas namoradas se queriam ter filhos, se dissessem não, não tinha sexo.

O senhor ensinaria o Jiu-Jitsu a um homossexual?

Se ele se portasse como homem, sim, mas enquanto autoridade (governador, presidente) castraria todos eles e os mandaria para a Amazônia.

O que diria àqueles que são contra o Vale-Tudo?

O Vale-Tudo é a arte que eu ensino. A luta não é sangrenta e nós já provamos que é possível vencer com técnicas. A verdade é que o boxe, com luva e tudo, mata 10 por ano e nunca morreu ninguém no VT. Um soco de mão limpa faz muito menos mal que um soco de luva, que pode chegar a 130 kg, rompendo vasos cerebrais. Portanto, estar contra do Vale-Tudo é um erro.

Quem substituirá a atual geração da família?

Por enquanto não vejo ninguém. Meus filhos vão continuar invencíveis por mais 10 anos. Estou tentando preparar os filhos do Rorion, com os quais tenho mais contato.

O que achou do último mundial de Jiu-Jitsu?

Esse mundial foi mundial de tudo, menos de Jiu-Jitsu. Para mim, Jiu-Jitsu é o que eu faço e ensino ao Brasil todo há 70 anos. No momento que modificaram e colocaram regras e um tempo mínimo e pontos, que só favorecem aos mais fortes e mais pesados, não é o meu Jiu-Jitsu.

Mas como fazer um campeonato se não houver tempo nas lutas?

Esta é a justificativa que eles dão. A verdade é que estas regras que aí estão, só favorecem o mais forte e não demonstraram a eficiência da luta. É regra para um cara segurar o outro e não deixar lutar, quando o meu Jiu-Jitsu é feito para ganhar ou não apanhar, usando técnica. Estas pessoas que dizem que estou gagá que vistam o quimono e venham fazer uma luta comigo para verem como estou gagá

O adeus do mestre

No dia 29 de Janeiro de 2008, nove anos depois daquela entrevista que tanto me marcou, subi novamente a serra. Infelizmente, desta vez para cobrir o funeral do grande mestre, que aos 95 anos havia falecido em decorrência de uma pneumonia. Como era seu desejo, o enterro foi bem simples num pequeno cemitério de Petrópolis, região Serrana do Rio, para um seleto grupo de amigos, alunos e familiares.

Dos nove filhos, somente Royce e Rolker tiveram tempo de chegar ao funeral a tempo. Rorion e Royler estavam nos Estados Unidos e Robin e Rickson na Europa.

“Há dois dias atrás a minha mãe ligou dizendo que ele não duraria muito, então eu parti imediatamente pra cá. Parecia que ele só estava me esperando, assim que cheguei ele se foi”, revelou, ainda virado vindo direto do voo de Los Angeles, o homem que consagrou o nome e a modalidade de seu pai no UFC. Bastante emocionado, Royce resumiu seu pai em poucas palavras: “Ele era um homem que sabia viver”.

Se conseguiu convencer a família a ter uma despedida modesta, Hélio não teve o mesmo sucesso com seus fãs e a imprensa. Jornais e TVs de todo o país noticiaram o falecimento. Os sites de luta do mundo passaram dois dias prestando homenagens ao mestre e o UFC fez uma homenagem especial ao pai de seu criador, Rorion, na edição 94. Nada mais justo para um homem que criou uma modalidade que difundiu tanto a imagem do Brasil e garantiu uma fonte de emprego para milhares de brasileiros, que hoje vivem dignamente ensinando Jiu-Jitsu e lutando MMA.

  • "Helio Gracie em seu sítio na Serra Fluminense - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Helio Gracie em seu sítio na Serra Fluminense - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Sequência do treino entre o fotógrafo Fernando Azevedo e Hélio Gracie - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Entrada do sitio em itaipava, onde Hélio morou - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Helio Gracie e Marcelo Alonso - Foto: Fernando Azevedo"