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UFC 9: A noite em que Don Frye superou o fenômeno da Carlson Gracie

por: PVT
em 23 de novembro de 2016

após a luta Severn desfilou com um cartaz desafiando seu algoz da final do UFC 4 para uma super luta - Foto: Marcelo Alonso

após a luta Severn desfilou com um cartaz desafiando seu algoz da final do UFC 4 para uma super luta – Foto: Marcelo Alonso

A inesperada derrota do fenômeno da Carlson Gracie Team Amaury Bitetti para Don Frye, a grata surpresa do pupilo de André Pederneiras Rafael Carino, que salvou a noite brasileira, a revanche entre Coleman e Severn, o campeão olímpico convidado para lutar nos corredores do hotel… Vinte anos se passaram, mas as lembranças daquele UFC 9, no dia 17 de maio de 1996, em Detroit, Michigan, seguem vivas.

Hoje o UFC é indiscutivelmente a copa do mundo do MMA. Além de categorias de pesos e regras bem definidas, existem as Comissões Atléticas obrigando que o show siga rigorosamente suas regras.

Não é a toa que a marca foi vendida por 4 bilhões de dólares e cada evento é assistido por milhares de pessoas ao redor do mundo em mais de 160 países. Mas nem sempre foi assim.

Em maio de 1996 viajei para Detroit, Michigan, para cobrir o UFC 9, no qual lutaram os brasileiros Amaury Bitetti e Rafael Carino, e pude ver de perto os primeiros passos deste que viria a ser o maior evento de lutas do mundo.

Com a saída de Rorion e Royce na 5º edição, o show inicialmente concebido para comprovar a superioridade de uma modalidade sobre outras foi comprado pela SEG (Semaphore Entertainment Group), que passou a ter como principal foco as vendas de pay per view. Ou seja, não havia mais como fazer lutas sem limite de tempo.

Nesta 9º edição, pela primeira vez, tentou-se abolir o formato torneio, fazendo um evento de seis lutas casadas. Curiosamente a forte campanha anti-NHB, que boa parte da classe política fazia contra o UFC, acabou ajudando a alavancar as vendas do show. Não por acaso o ginásio Cobo Arena lotou com quase 12 mil pessoas. E o pay per view atingiu a casa dos 300 mil pacotes vendidos.

Lembro que pude sentir a febre do Jiu-Jitsu nos EUA assim que entrei no lobby do hotel dos lutadores em Detroit e avistei um festival de camisas de Jiu-Jitsu: Gracie, Rickson, Machado Brothers, Pedro Sauer. Curiosamente, mesmo sem vencer desde o UFC 7 (com Ruas), os brasileiros eram sempre favoritos. Por outro lado aumentava a torcida americana que não suportava mais ver brasileiros vencendo em seu território. O clima de Brasil x USA era forte nos bastidores.

Amaury Bitetti x Don Frye

Apontado por muitos como faixa preta mais técnico de Carlson Gracie no Vale-Tudo, Amaury Bitetti com apenas (1,73m 85kg), teve a indigesta tarefa de fazer sua estréia no UFC enfrentando o campeão do UFC 8, Don Frye (1,85m/95kg).

Após a derrota para os pesados Hulk e Frye, Amaury conquistou três vitórias em sua categoria de peso - Foto: Marcelo Alonso

Após a derrota para os pesados Hulk e Frye, Amaury conquistou três vitórias em sua categoria de peso – Foto: Marcelo Alonso

Com 12 mil pessoas gritando ensurdecedoramente “USA! USA!” Amaury, cuja última luta havia sido o nocaute sofrido para mestre Hulk um ano antes, enfrentaria o campeão do UFC 8, que há dois meses tratorizara três oponentes em menos de 3 minutos.

Lembro que, ao lado do octógono, podia perceber o nervosismo de Amaury que chegava a babar andando de um lado para o outro enquanto Frye de braços cruzados sorria para o carioca.

Assim que o juiz Big John proferiu o seu “Get it On” Amaury partiu para cima do oponente com ímpeto, aplicando um pisão e tentando cintura-lo junto à grade. Mas Frye usou seu Wrestling para deixar o brasileiro fazer força e cansar tentando derrubá-lo. Quando percebeu que o faixa preta de Carlson já dava sinais de cansaço, Frye o soltou e partiu para a trocação. Amaury acertou o primeiro, mas foi logo contra-atacado com dois potentes golpes, sendo derrubado pelo americano, que, após acertar alguns socos ainda tentou passar sua guarda. Amaury levantou e, de pé novamente, voltou a levar desvantagem. Enquanto a torcida gritava sem parar “USA! USA!”, o brasileiro absorvia um direto, dois cruzados e três joelhadas até cair fazendo guarda tentando se defender de uma chuva de socos e cotoveladas do americano

A luta foi interrompida para os médicos analisarem o sangramento do brasileiro, mas Amaury queria mais. Quando o combate foi reiniciado, Bitetti, que já parecia nocauteado em pé desde o cruzado no queixo que levou nos primeiros minutos de luta, lutava no automático. Enquanto isso, Frye, mesmo já estando bastante cansado, o punia em pé e novamente de dentro da guarda. Já bastante cansado, sangrando muito do supercílio e sem esboçar reação, Amaury viu Big John interromper o combate a 9min22s. “O Amaury é o lutador mais guerreiro que já vi aqui no UFC, mesmo perdendo não parava de atacar e não desistiu. Espero que continue a lutar”, me disse Big John ao sair do octógono.

“Com um minuto de luta percebi que ele não era tão bom quanto imaginava. Adoro que me coloquem na guarda é muito cômodo para mim. Agora quero um Gracie. Eles são bons mas tenho certeza que minha técnica é superior”, me disse na época Frye numa festa realizada pelo UFC no hotel logo após a luta

Amaury Bitetti: “Hoje eu lutaria até 77kg”

O brasileiro encontra Severn na passagem de reconhecimento do Octagon - Foto: Marcelo Alonso

O brasileiro encontra Severn na passagem de reconhecimento do Octagon – Foto: Marcelo Alonso

Passados 20 anos do confronto com Frye, o hoje promotor do Bitetti Combat revela que lutou contundido. “Foi uma guerra. O Frye era enorme, bom de porrada e wrestling, difícil de quedar, e ainda segurava a grade o tempo todo. Eu queria vencer no 1º round, porque sabia no segundo eu iria cansar, pois vinha de um estiramento no abdômen e tinha tomado infiltração. Não consegui, ele cansou também, mas foi melhor”, lembra Bitetti, que após as derrotas para os bem maiores Hulk e Frye, conquistou três vitórias seguidas lutando em seu peso. “Venci o Maurice Travis, o Alex Andrade no UFC, e o Dennis Hallman, que tinha acabado de finalizar Matt Hughes duas vezes no UFC”.

Amaury revela que se lutasse hoje estaria na divisão dos meio médios. “Hoje seria bem mais fácil, tem regra, divisão de peso, e na minha época não tinha nada disso, era porrada. Hoje eu lutaria de 77kg”

Carino salva a pátria

Carino com o cartola Art Davie, promotor do show na época - Foto: Marcelo Alonso

Carino com o cartola Art Davie, promotor do show na época – Foto: Marcelo Alonso

Se Amaury decepcionou, o faixa marrom de André Pederneiras Rafael Carino (1,97m/113kg), que na época só tinha 23 anos de idade, fez uma estréia de gala. Seguindo os conselhos do mestre que fazia seu corner ao lado de Vitor Shaolin, Carino só precisou de 5min32s minutos para derrubar, montar e obrigar Matt Anderson (1,89m/105kg) a desistir com socos na guarda.

Severn x Shamrock

Depois de conseguir empatar com Royce no UFC 5, numa luta de 36 minutos, Ken Shamrock acabou se beneficiando com a saída do Gracie do show logo após esta edição (Rorion não aceitou a limitação de tempo imposta pela TV e decidiu vender sua parte do show).

Os grapplers Shamrock e Severn surpreenderam a todos passando a maior parte dos 27 minutos da super luta trocando tapas em pé - Foto: Marcelo Alonso

Os grapplers Shamrock e Severn surpreenderam a todos passando a maior parte dos 27 minutos da super luta trocando tapas em pé – Foto: Marcelo Alonso

Mesmo nunca tendo vencido um torneio do UFC, Ken ficou como detentor do cinturão de super fighter, botando o titulo em jogo em 4 oportunidades e vencendo todas elas. Primeiro Severn (UFC 6), depois Taktarov (UFC 7) e depois Kimo (UFC 8). Mas com a vitoria de Severn no primeiro Ultimate, quando passou por Paul Varelans, Tank Abbot e Taktarov na mesma noite, Severn conquistou o direito a revanche. E ela ocorreu como super luta do UFC 9

Ao contrário da primeira luta quando Shamrock só precisou de 2minutos para finalizar “A Besta” com uma guilhotina, desta vez a luta percorreu 30 longos e monótonos minutos. Ao contrário do duelo de grapplers que todos esperavam, o que se viu foi uma luta de dois trocadores de tapa.

No finalzinho Dan Severn levou Shamrock para o chão, mas este conseguiu raspar e caiu montado e assim permaneceu por alguns minutos. Severn conseguiu sair e caiu novamente por cima passando o último minuto da luta socando de dentro da guarda de Shamrock, que foi salvo pelo gongo. Na prorrogação mais 3 minutos de troca de tapas e os juiz resolveram dar a vitória a Severn.

Encontrando um campeão olímpico nos corredores do hotel

O campeão olímpico Mark Schultz com o aluno de Rickson Pedro Sauer - Foto: Marcelo Alonso

O campeão olímpico Mark Schultz com o aluno de Rickson Pedro Sauer – Foto: Marcelo Alonso

No Brasil, até os dias de hoje, ouvimos histórias de eventos pequenos que salvam o card convidando lutadores no dia da pesagem. Existem até relatos de eventos que convidaram lutadores na platéia na hora do show.

No UFC 9 acompanhei algo parecido acontecendo. Dave Beneteau, que deveria enfrentar o vice campeão do UFC 8, Gary Goodridge, se machucou um dia antes da competição. E os organizadores recorreram ao “jeitinho brasileiro” para resolver a situação. Ao saber da vaga, o faixa preta de Rickson Gracie Pedro Sauer, que estava no mesmo hotel dos lutadores com seu aluno, o bi-campeão olimpico de Wrestling Mark Schultz, sugeriu seu nome aos promotores. O pessoal da SEG, interessado em catapultar as vendas pay-per view, adorou a idéia. A fama de Schultz nos EUA lhe rendeu uma irrecusável proposta: 50 mil dólares para fazer uma única luta.

Nos bastidores Sauer me confessou “Aposto contigo que ele vai dar um pau neste Goodridge. O Cara é tão duro que o Rickson só conseguiu finalizá-lo três vezes em trinta minutos de treino, isso sempre por baixo”, me disse o faixa preta que na época residia na Califórnia.

Dito e feito. Mesmo sendo 20kg mais leve, Shultz derrubou Goodridge três vezes dominando a luta toda e terminando montado e batendo. Graças a excelente atuação e a mãozinho que deu para catapultar as vendas de pay per view, Mark acabou embolsando o dobro do combinado: 100 mil dólares.

A diferença de peso também marcou outra luta do card. Mark Hall (1,83m-86kg) só precisou de 40 segundos para quebrar o nariz do gigante do Sumô Koji Kitao (2m/170kg), que um mês antes do evento havia perdido para o brasileiro The Pedro no UVF Japan. O sangramento abundante no nariz do japonês levou os promotores, já preocupados com a visão do esporte na TV, a interromperem o combate.

primeira edição fora do padrão torneio, o UFC 9 bateu todos os recordes de audiência. Além dos 12 mil que lotaram o Coba Arena em Mivchigan, quase 300 mil pagaram pra ver ao vivo - Foto: Marcelo Alonso

primeira edição fora do padrão torneio, o UFC 9 bateu todos os recordes de audiência. Além dos 12 mil que lotaram o Coba Arena em Mivchigan, quase 300 mil pagaram pra ver ao vivo – Foto: Marcelo Alonso

No outro combate, Call Worsham (1,80m/90kg) depois de derrubar o karateca Zane Frazier (1,98kg/97kg), o obrigou a desistir a 3min14s com socos e cabeçadas.

Apesar das excelentes vendas pay per view, o formato de lutas casadas não agradou o público e na edição seguinte a SEG se veria obrigada a retornar ao formato torneio consagrando Mark Coleman como novo campeão ao vencer Don Frye na final do UFC 10.

 

  • "primeira edição fora do padrão torneio, o UFC 9 bateu todos os recordes de audiência. Além dos 12 mil que lotaram o Coba Arena em Mivchigan, quase 300 mil pagaram pra ver ao vivo - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Big John na reunião de regras - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Vitor Shaolin, Joe Lewis e Pederneiras na reunião de regras - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Fazendo o reconhecimento da área onde faria minhas primeiras fotos pela grade"
  • "Dois meses depois de vencer três lutas em menos de 3 minutos no UFC 8, Frye lutou 9min22s com Bitetti - Foto: Marcelo Alonso"
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  • "Frye abusou do Ground N´Pound contra Bitetti, mesma arma que seria usada contra ele por Coleman na finalo do UFC 10 - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Após a derrota para os pesados Hulk e Frye, Amaury conquistou três vitórias em sua categoria de peso - Foto: Marcelo Alonso"
  • "O brasileiro encontra Severn na passagem de reconhecimento do Octagon - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Rafael Carino salvou a pátria e fez sua estréia no Vale-Tudo vencendo Matt Anderson - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Depois de ser finalizado por Shamrock na superluta do UFC6, Severn deu o troco - Foto: Marcelo Alonso"
  • "após a luta Severn desfilou com um cartaz desafiando seu algoz da final do UFC 4 para uma super luta - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Os grapplers Shamrock e Severn surpreenderam a todos passando a maior parte dos 27 minutos da super luta trocando tapas em pé - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Confraternização na festa pós evento - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Mesmo 20kg mais leve Schultz tratorizou Goodridge - Foto: Marcelo Alonso"