O fim do Pride e a volta do UFC ao posto de maior evento do planeta colocaram os Estados Unidos novamente como principal pólo financeiro do vale tudo no mundo. O país produz os maiores shows e suas principais estrelas são os atletas mais bem pagos do esporte. Com o centro das atenções voltados à Terra do Tio Sam, diversos brasileiros resolveram embarcar para a América, com o sonho de mais oportunidades, estrutura de treinos e um maior retorno financeiro.
Só que nem tudo são mil maravilhas no país ianque, e o Portal do Vale Tudo foi atrás de Vitor Shaolin para explicar como é começar uma nova vida em um lugar tão diferente do Brasil. Shaolin se mudou há cinco meses para Nova York, onde acaba de inaugurar uma academia de Jiu-Jitsu. Ele contou um pouco sobre as dificuldades que um brasileiro encontra ao se mudar para o país.
“Eu tenho visto muita gente vindo para os Estados Unidos e dizendo que está deixando o Brasil porque não tem suporte pra treinos, não tem Wrestling bom, não tem Boxe bom, etc”, disse Shaolin, “O Brasil realmente tem suas deficiências, talvez a maior delas seja a parte de Wrestling, porque não temos aquela cultura que outros países têm, de ter Wrestling desde o high school. Aqui nos EUA é muito fácil você encontrar esses treinos, mas o que as pessoas têm que entender é que não é fácil entrar em alguns lugares. Se você quer treinar Wrestling, você não pode ir à uma Universidade pra treinar, você tem que ser convidado, tem que conhecer alguém. Muitas vezes o que acontece é que os wrestlers se reúnem e fazem um treino, mas não é uma aula, não é uma coisa direcionada pra você. Então acaba que você vira sparring, ninguém pára pra te ensinar, a não ser que você pague alguma pessoa. O Boxe é a mesma coisa, quando você vem do Brasil pra morar aqui fora, se ninguém te introduzir em algum lugar, você vai pagar muito caro por um treinador de Boxe. Não é só você dizer "Eu sou faixa-preta de Jiu-Jitsu, sou campeão mundial, agora quero treinar com o treinador de Boxe do Oscar de la Hoya", não é uma coisa muito fácil. Você até pode conseguir isso, mas às vezes demora, você ainda não conhece as pessoas certas, isso leva um pouco de tempo. E se você tiver com uma luta próxima, você não vai ter tempo pra isso. E muitas vezes também esses treinadores não tem experiência para o vale tudo, ele vai te passar um Boxe voltado para o Boxe. Daí pra você chegar pra essa pessoa, que há 20 anos faz esse mesmo tipo de treinamento, e dizer que não quer aprender isso ou aquilo, não funciona assim. Às vezes o cara vai te ensinar algumas coisas e você tem que se adaptar sozinho, pois ele vai ficar te ensinando e não vai querer mudar o método dele de ensinar. São duas coisas que, com essa minha vinda pra cá, eu senti muito isso”.
Shaolin revela que não compreende quando alguns atletas afirmam que irão para os EUA para manterem-se mais focados em seus treinos ou que irão com a certeza de que terão mais oportunidades. Segundo ele, as coisas não são tão fáceis como se imagina.
“Há eventos diretos aqui na região onde eu moro, mas pagam bolsas quase que no mesmo valor que pagam aí no Brasil”, explicou, “Então aqui não é essa maravilha toda, aqui não é essa coisa que as pessoas acham que vão vir pra cá e vai dar tudo certo. Tem gente que chega e diz "Ah, vou para os EUA e vou conseguir me focar". Como assim conseguir se focar? Uma coisa é você vir pra cá com a ajuda de um milionário, que banque todos seus custos, e que você não precise de nada, seja solteiro, que possa cair em qualquer lugar que o cara te arrumar, ele te pagar tudo e você só treinar. Aí é uma coisa. Mas vai você pra outro tipo de cidade, onde você tem que correr atrás das suas coisas, onde pra chegar até o Boxe leva 40 minutos, vários lugares aqui são assim. Às vezes pra você ir treinar Boxe leva uma hora, pra treinar Wrestling leva mais uma hora, você vai treinar Jiu-Jitsu leva outra hora. Então é uma coisa complicada, essa de achar que vai vir pra cá e vai se focar mais. Eu, no Brasil, tinha tudo que eu precisava num lugar só e era a melhor coisa do mundo. Hoje em dia eu viajo pra New Jersey, ou aqui em Nova York vou de downtown pra uptown pra poder treinar. Eu tenho que ir em busca do meu treino até conseguir uma equipe, eu não tenho condições de trazer toda a minha academia pra cá. Não é assim que a coisa funciona. Eu quero fazer que nem o Dedé (Pederneiras) fez, que é investir e conseguir formar toda aquela galera, criando uma identidade”.
Shaolin lamenta ao ler declarações de atletas desmerecendo os treinos que acontecem no Brasil. O faixa-preta conta que não aprova certos comentários que partem de outros lutadores.
“Eu acho uma falta de respeito com os treinadores e com os empresários as pessoas saírem do Brasil e desmerecerem tanto o país assim”, disse, “Até hoje eu vejo alguns gringos, sem citar nomes, mas que vão disputar cinturões, que ligam para o Brasil e convidam alguns caras para morarem nos EUA. Eles não estão procurando por um outro gringo, estão procurando por um brasileiro. Eu tenho visto pessoas reclamando do Brasil, dizendo que não tem isso ou aquilo, mas elas estão vendo caras que vieram pra cá em um ritmo diferente. Eu fico chateado com as pessoas desvalorizando o trabalho de alguns técnicos e de alguns managers, porque tem muita gente boa aí. Tem muita gente que trabalha bem a carreira de um atleta, porque não é difícil arrumar uma chance, difícil é arrumar a chance. É aquele bom evento, aquela boa luta, com um lutador experiente, coisas assim tem muitas pessoas boas no Brasil que conseguem arrumar”.
Aluno de André Pederneiras, Shaolin lamenta não só a desvalorização do Brasil, mas também a postura de alguns atletas quando, após anos de estrada, esquecem aqueles que estiveram sempre ao lado.
“Eu vejo pessoas que conseguiram lutas em grandes eventos com a ajuda de brasileiros, aí quando chega lá troca de empresário”, comentou, “Eu entendo que problemas podem acontecer, você pode não estar satisfeito com o seu empresário, mas se aquela pessoa não tivesse te arrumado uma chance, talvez você nunca ganhasse o que já ganhou. Eu não entendo muito. Como é que você consegue 10 vitórias com aquela pessoa e de repente você está em um evento maior, aí vem uma outra pessoa e diz "Olha, eu te consigo o dobro", você chega e abre mão, como isso acontece? É uma coisa que não admiro muito, pois minha vida inteira estive com o Dedé, sempre acreditei que era com ele que eu podia ir longe”.
Shaolin desembarcou nos EUA em julho e vem se dedicando a ensinar apenas Jiu-Jitsu, esporte que é faixa-preta há 12 anos. O lutador explica que já sabia das dificuldades que ia encarar no país e que estava preparado para tudo.
“Eu posso te garantir que, no meu caso, em nenhum momento eu saí do Brasil achando que teria mais oportunidade de luta”, contou, “Eu saí do Brasil pra trabalhar com o Jiu-Jitsu, aí sim, com certeza trabalhar no Brasil com o Jiu-Jitsu é mais complicado. Eu vim para os EUA trabalhar com o Jiu-Jitsu e com a certeza de que será um trajeto mais longo. Todos os caras com quem eu conversei, os famosos que dão aula, não tem um que veio pra cá e não teve um problema no começo. Problema que eu digo é problema com conta, com sócio, correr atrás disso ou daquilo. Não teve um. A grande maioria teve algum problema no comecinho aqui. Uma coisinha qualquer que você não sabia que tinha que pagar e de repente chegou pra você, problemas com a língua, de fazer amigos, etc. Não é uma coisa fácil. Estou feliz com a vida que tenho hoje, mas eu soube separar bem as coisas. A minha academia é totalmente voltada para o Jiu-Jitsu, minha vinda pra cá não foi pra arrumar mais luta. Pretendo ficar aqui dando aula por muito tempo, não penso em voltar ao Brasil. Aqui nos EUA pretendo conseguir uma ponte entre a Nova União daqui e do Brasil. Estou junto com o Dedé há 15 anos, devo muito a ele em relação a minha educação, meu caráter, etc. Sempre compartilhamos esse desejo de formar novos atletas para o futuro. Estou trabalhando com a coisa que mais gosto na vida, que é ensinar Jiu-Jitsu”.
Com a experiência que já vem adquirindo no país, Shaolin deixa um recado para aqueles que planejam se aventurar nos EUA.
“Quem vier pra cá, independente do que vai fazer, se organize. Venha pelo menos com a língua, venha com ela boa pra dar pelo menos uma boa aula, senão vai ter problema”, finalizou.
Para conferir o trabalho de Vitor Shaolin nos Estados Unidos, acesse agora mesmo seu site: www.vitorshaolin.tv