UFC 89 - o dia da luta do Banha

Dia de luta é sempre um dia tenso. Quem pensa que é tenso só pra lutador está enganado. Sofre todo mundo com a ansiedade, afinal foram meses de treinamento. Nessa hora, lutador se pergunta se o dever de casa tá perfeito, como o adversário vai estar, se o cara bate realmente forte e etc...

 

Quem pensa que não é do mesmo jeito com o time todo, tá enganado.  Uma luta como essa do Banha, por exemplo, deixa o povo um bocado apreensivo. Pra vocês terem uma idéia, há um ano e meio atrás, Banha não pôde lutar no Max Fight de Campinas contra o Bolacha porque teve caxumba. Naquele mesmo mês, Sokoudjou calou a boca dos que o chamaram de sortudo depois da vitória sobre Minotouro, nocauteando também outra estrela do Pride, Ricardo Arona. Pois bem, cá estamos nós, 18 meses depois daquilo e Banha vai sair na mão no melhor evento do mundo contra esse cara!

 

Alguns me recriminaram por achar que era cedo demais pro Banha pegar um adversário desse quilate, que ele devia comer esse mingau pelas beiradas, que essa categoria era difícil demais e coisas desse tipo. Mas exatamente por confiar no potencial dele e por saber o tipo de trajetória necessária dentro do UFC eu pedi a Zuffa 3 adversários e eles me deram um dos que eu pedi. Tenho plena consciência do quanto Banha pode render e contra quem ele está pronto ou precisa de mais quilometragem. Pra vocês terem uma idéia, depois que ele ganhou o Art of War em Setembro do ano passado, ofereceram uma luta pra ele contra o Rogério Minotouro, que foi gentilmente declinada.

 

Mas vamos voltar ao que interessa. Podem ter certeza que ao mesmo tempo em que confio, surge a apreensão de ver o bloco na rua. A mesma coisa acontece com os treinadores. Tenham a certeza de que eles ficam do mesmo jeito. Ainda mais no caso deles, que convivem diariamente, que apanharam do Banha durante 15 semanas, que deram esporro, que corrigiram, que suavam juntos. Para esses caras, a hora da verdade passa com a metade da velocidade. Queriam mesmo era que o dia começasse às 4 da tarde e não às 10 da manhã.

 

Sim, 10 da manhã. Foi a hora que o Banha acordou. O sono dele, na visão de quem estava na cama ao lado, foi tranqüilo. É evidente que as visitas ao banheiro durante a madrugada foram constantes porque afinal de contas, ninguém fica impune a litros e litros de repositores e água. Alguma hora ele ia ter que esvaziar aquele tanque.

 

Mas de uma maneira geral, pareceu mais um urso hibernando esperando à hora de sair da caverna e ir procurar comida. O problema dessa hibernação é que o urso ronca... Não só ele, mas os treinadores também! Na verdade, se eu fosse colocar uma flauta na boca de cada um, teria regido a nona de Bethoven.  Tá certo que seria meio desafinada, mas a “Orquestra de roncos do Butantã” tava forte...

 

Por falar em sono intranqüilo, pude presenciar pela primeira vez em minha vida uma luta de alguém dormindo! Havia certo individuo no quarto, que ainda não foi batizado por mim com apelido algum (fiquei esperando sugestões, mas vocês não colaboraram...), que simplesmente agredia o travesseiro durante o sono. Nunca vi alguém se virar tanto de lado na cama. Se mexer na cama é normal, ok, mas pular pra lá e pra cá jogando o travesseiro pro lado foi meio brabo. Tava até respeitando o rapaz, mas quando recebi uma cotovelada na canela lá na minha cama tive que acordar o cara. Fiquei na dúvida entre Dormonid e Gardenal, mas acabei sem prescrever nada mesmo, afinal não sou médico.

 

Quando o urso acordou, pra variar, tava faminto. Recebemos a visita de alguns amigos brasileiros que vieram da Irlanda para a luta e fomos ao café da manhã. Daí pra diante foi espera. Banha ficou no quarto fazendo alguns deveres de casa para patrocinadores, assinando camisas e autografando posters e logo após, adivinhem o que foi fazer? Almoçar, lógico.

 

Bom, dessa vez não deixamos aquele nosso lutador da madrugada pedir a comida. Ficamos com medo do que viria a seguir. Durante a viagem ele havia pedido suco de maçã (Uepol Juice), pediu também um copo com bastante gelo, que batizou de Uaice. (Será que esse gelo era mineiro????). Enfim, qualquer palavra que começasse com vogal ou a letra W, passava a receber pelo menos umas 8 letras U de acréscimo. WHAT era impronunciável, cada vez que ele repetia, vinha com mais um U de acréscimo. E o WHO? Nossa mãe do céu! Parecia um grunhido!!!  Aliás, o sanduíche que comemos naquela manhã, segundo ele, foi comprado no SÂUBAUEI. (Se vocês não entenderam, foi no Subway...) Testemunhas mentirosas juram que ele agradeceu ao serviço de quarto com um sonoro Utenquiul, mas aí eu acho que já foi maldade de amigos próximos. Agora, ver alguém dizer que não fala inglês pronunciando em alto e bom som “NO SPINGLICH” poderia ser até propaganda do Credicard, não tem preço! Shakespeare já havia dado oito rolamentos na tumba. Tudo bem que o cara é lutador também, mas precisava agredir a língua inglesa daquela forma????? Vou aliviá-lo de outras peripécias da viagem, pois como havia pouca gente nessa, ia ficar muito fácil matar a identidade e não estou aqui pra apontar os santos. Só conto os milagres...

 

Lembrei todo mundo que nosso vôo de volta pro Brasil era 6 da manhã logo seguinte, e deixaríamos o hotel às 3 da matina. Disse que depois do evento provavelmente teria festa e só voltaríamos ao hotel bem tarde, portanto seria sábio da nossa parte já deixar tudo pronto. Pra não deixar ninguém nervoso não disse a real necessidade daquilo. Não haveria festa nenhuma depois do evento, mas eu previa uma luta de pancadaria pura e as chances de vitória do Banha eram diretamente proporcionais ao estrago que ele poderia sofrer. Fiquei preocupado de ele ter que ir pro hospital tomar uns pontos depois da luta e se não estivéssemos organizados, acabaríamos perdendo o vôo pra casa. Coisa administrativas que me cabem, mas que não precisam ser ditas ao atleta nem aos técnicos pra não criar tensão.

Nesse meio tempo, chegou Fernando Kallás, repórter da GloboNews que foi a Birminghan e acompanhou o dia de luta do Banha. A matéria vai ficar um barato, pois mostra um lutador desde o momento em que está no quarto, arrumando mala pra ir pra arena, fala de seus sentimentos nesse momento e tal e é óbvio, faz todos os bastidores do evento.

 

Cinco e meia da tarde, chegou a hora de ir pra arena, que aliás estava sold out. Todos os 10 mil ingressos vendidos. O preço mais barato 40 pounds (Faço aqui um parêntese sobre aquele velho assunto do UFC no Brasil. O ingresso mais barato lá custava em torno de 150 reais pessoal!!)

 

Chegamos na arena com o evento já acontecendo. Como o Banha era main card, ficamos no hotel mais tempo. No vestiário dele, compartilhamos a presença do casca grossa que também pode ser considerado Pound for Pound o lutador mais fanfarrão do mma, Akihiro Gono. Pra vocês terem uma idéia, depois do aquecimento dele, teve um ensaio com a dança que ele fez na entrada no ringue!!!! E quem fazia a coreografia errada tomava esporro, surrreal!!

 

Enquanto isso Banha deitou no edredon que trouxe do hotel e fechou os olhos, mas acho que não chegou a cochilar. Logo depois um inglês entrou no vestiário pra colocar a atadura na mão dele. Banha pediu uma atenção especial pra mão esquerda, pediu que o experiente cutman fizesse aquela mão com carinho, pois seria dali que sairiam as maiores bombas. O inglês sorriu e batizou a mão dele de “Nightness” numa referência à escuridão que se seguiria à pancada daquela mão. Banha adorou o apelido, chegou a repetir em voz alta Luiz “Nightness” Cane, mas eu acabei com as esperanças dele. Não ia ser agora que ele ia deixar de ser “Banha”, já era...

 

Bom, Banha aqueceu, orou e segurou a emoção, pois tenho certeza que se lembrou da recém partida Vózinha querida. Chego a me arrepiar, mas acho que aquela velhinha simpática, que só vi pela foto que ele me mostrou, estava espiritualmente conosco ali, e apesar de achar que aquele não era o ambiente para uma bondosa senhora, seu neto estaria indo trabalhar dali a poucos minutos e como vovó é mãe 2 vezes, ela não se importaria com o ambiente, só queria mesmo proteger seu netinho (netinho não, netão!!)

 

Aí o Banha foi lá e lutou. Isso vocês todos viram. Viram um primeiro round onde ele se preocupou em agüentar a tempestade, como Joe Rogan falou durante a entrevista, mas o mais importante: Se movimentou muito e frustrou Rameau, pois a cada chute, a cada soco que tomava, Banha continuava andando pra cima. Isso quebrou o espírito do Camaronês, que esperava resolver aquele problema que estava na frente dele em cinco minutos.  Como só podem entrar 2 no octagon, ao invés de ficar parado no meu banquinho, fui lá do outro lado ver o que Dan Henderson tava falando pro camaronês, tentar pescar a estratégia dele pro segundo round e tentar prevenir o Banha. Sokoudjou estava morto. Pareceu-me ter tentado tudo o que podia no primeiro round. Não tinha mais armas pra mostrar. Dan chegou a sugerir que ele tentasse mais quedas e pontuar o segundo round num “ground n’pound” pois já havia ganho o primeiro round e dessa forma poderia se recuperar e  arrumar fôlego pro terceiro e decisivo round.

 

Enquanto isso vocês que assistiram a luta ao vivo, ouviram Helio e Serginho dando esporro e chamando o Banha pra luta. Banha precisava responder mais aos golpes de Sokoudjou,. Ninguém disse a ele, mas havia perdido o primeiro de 10 a 9 e precisaria mostrar mais no segundo.

 

Logo no começo do segundo round Hélio mandou ele chutar por dentro. Só que o menino calça 46, e com uma pata daquele tamanho à uma distância daquela, acertar a coquilha do camaronês era 85% de chance. Não deu outra, e ali me preocupei. Vi o filme do James Irvin na estréia do Banha no UFC passar na minha cabeça. Um adversário assustado, sem saber como vencer poderia achar num golpe ilegal uma maneira desonrosa de sair dali com a vitória. Foram segundos, mas eles passaram devagar na minha cabeça e rezava pra que o Camaronês fosse macho.  Diferentemente de Irvin, ele mostrou o que tinha embaixo da coquilha que o Banha acertou e voltou pra briga. Graças a Deus, o camaronês era homem de verdade e voltou pra luta!!!

 

A luta continuou e Banha já estava nitidamente mais confortável no octagon. Sokoudjou já não era mais o mesmo do primeiro round, mas não tava morto. Deu um chute pulando que parecia de videogame. Helio ainda pediu mais um chute por dentro e eu disse a ele que não pedisse mais aquilo, pois certamente o Banha não correria mais esse risco e podia travar. Melhor na costela. Banha tava caçando já o camaronês, mas só de mão. Supliquei ao Helio e ao Serginho que ele colocasse os joelhos, porque no primeiro round, a única joelhada que ele deu foi perto da gente, e a cara de choro do camaronês me surpreendeu. Quando já preparava os meninos pra entrar pro intervalo do segundo round, o Banha manda lá do outro lado do octagon uma joelhada que fez o camaronês confessar até os pecados que não tinha cometido e aí, logo depois, a “Nightness” entrou em cena. O assassino africano desceu e não contei, mas acho que a tal da “Nightness” deu o ar da graça mais umas quinze vezes antes do juiz apartar.

 

Só alegria. O cara derrubou na mão um top 10 que havia nocauteado outros 2 brasileiros, também top 10. Falei brevemente com Joe Silva na entrada do Octagon e ele chegou a perguntar por que demorou tanto. Na hora fiquei achando implicância, mas agora, com as emoções em baixa rotação vejo que eles não deram o camaronês ao Banha à toa. Eles confiam no Banha e acham que ele vai longe.

 

Muitas risadas, Banha absolutamente doido, cumprimentando a todos que passavam, mas tava na hora de encher o potinho. Logo depois da luta tem o exame anti-doping e ele foi escalado pra fazer.  No caminho de volta depois do xixi, fomos falar com Rameau. Triste no vestiário, ele deu um sorriso, apertou nossa mão e voltei com a impressão de que veremos um lutador melhor de agora em diante. Acho que quem pegá-lo de agora em diante vai cortar um dobrado ainda maior, porque tenho certeza que ele vai voltar melhor de gás e menos falante ainda... Entrevistas pós-luta, fotos, e mais fotos e fomos pra arena assistir a luta final. Bisping está se transformando numa espécie de Beckham do MMA. Impressionante ver a torcida local que ao invés de gritar seu nome, gritava “England, England!“  Por aí vocês calculam como estava a arena. A luta foi uma briga de foice no escuro com Leben tentando a patada de esquerda e o Bisping só machucando o doido. Eu e Banha em pé assistindo os segundos finais do terceiro round, protagonizamos uma cena engraçada.

 

Era a nossa contagem regressiva rezando pra que a luta fosse pra decisão, pois se houvesse um nocaute ali, certamente seria o nocaute da noite.  Quando ouvimos o som do fim do round, comemoramos como se fosse gol, pois as chances do KO da noite triplicaram.

 

Banha depois disso foi chamado pra press conference, onde anunciaram os prêmios da noite e Udana Uwhite (Desculpem mas tá difícil voltar ao normal...) falou sobre a categoria lightheavy weight e disse que Banha agüentou a tempestade do primeiro round e picou Sokoudjou em pedaços no segundo round. Antes de ir embora Dana me puxou num canto e disse: “Man, your boy is sick! Congratulations!”

 

Agora é hora de voltar pra casa, Banha vai curar as bicheiras. Seu cotovelo parece uma bola de tênis já há 2 meses, fazendo pulsão 2 vezes por semana pra tirar líquido sinovial. Mas não podia deixar essa luta passar. Agora deve entrar na faca, botar o corpinho em ordem e esperar o próximo trabalho.

 

Contra quem será?  Isso é o que veremos.

 

Fiquem com Deus e até a Próxima!

Se cuidem,

Tetel

 

PS.: Vó, obrigado pela proteção em nome de todos. Agora vá em paz e descanse, a Sra. merece!

 
Marcello Tetel | 20/10/2008 - 15:34
 
Direto da Inglaterra - UFC 89

Grande Rapaziada,

 

Vamos dar uma paradinha no assunto Japão até semana que vem. Por enquanto o assunto será Inglaterra.

 

Desde Terça-Feira, estamos na cinza cidade de Birminghan esperando o sábado em que Banha vai bater de frente com o Camaronês Usuoukoudjou. Na verdade não sei se o nome dele tem tanta letra U assim, mas por motivos de convivência estou distribuindo essa letra em todas as palavras do meu vocabulário anglo-saxão. Mas isso é uma história que conto depois... Preciso primeiro pensar num novo apelido para essa nova fera, porque Felizardo 2 seria muito óbvio...

 

A vida de lutador de UFC na semana de viagem não é fácil. Principalmente pra lutador que não mora em Las Vegas.  Eles aproveitam que o lutador está por perto e arrancam o couro, em termos de compromisso.  Entre compromissos inerentes à luta e compromissos de publicidade, passamos a terça, a quarta e quinta feira enfurnados em salas onde Banha tirava fotos, dava entrevistas para o UFC.COM, gravava perguntas e respostas que irão aparecer no telão antes da luta, exames médicos, licenciamento de atleta e corners junto à comissão esportiva local e etc..

 

No meio do caminho, Banha ainda teve que encontrar tempo pra se movimentar e tirar a teia de aranha da viagem. Ele chegou aqui com 223 pounds e precisava cortar 18 libras até sexta-feira. Foram dois treinos no horário da luta, um na quarta, e outro na quinta. Nada muito forte, só movimentação pra suar e ir perdendo o peso. O problema é que o pobre do aparador já tava pedindo o reserva porque o chute “de leve” tava castigando o coitado do treinador de um jeito, que te confesso que fiquei preocupado com a preservação do rapaz.  Afinal de contas, se ele se machuca eu é que não seguro aquele aparador pra ele aquecer no vestiário nem pagando muuuito!!

 

Nosso amigo Camaronês chegou desprovido da marra habitual. Acho de verdade que a derrota pro Lyoto deu uma amansada nele. Nos encontramos algumas vezes e ele sempre tranqüilo, sem a banca de costume. Outro que me impressionou foi o David Bielkheden. O cara chegou quadrado e eu achei que pra chegar nos 70 kilos ia precisar no mínimo cortar uma perna. O Leben estava o louco de sempre com uma trancinha nos cabelos e as unhas pintadas de preto. Indignado quando viu os brasileiros de havaianas. “Minha namorada pagou 60 dolares!!”  Depois desse depoimento enraivecido, alguns brasileiros amantes do dinheiro fácil cogitaram o contrabando das sandálias brasileiras para o Velho mundo como opção de pagar as contas...

 

Na noite anterior à pesagem, Banha comeu quase nada e bebeu nada. Foi dormir com 213 pounds, ou seja, em dois dias 4 kilos e meio foram embora. Agora só faltavam mais três que seriam resolvidos na manhã de sexta, na sauna. Fiz questão de ver quanto ele estava pesando antes de dormir porque sabia que iria acordar mais leve. Queria ver como o organismo dele reage nessa perda pra controlar mais fácil e administrar sempre esse sofrimento. Banha acordou e fomos direto pesar. Mas uma das risadas da viagem aconteceu antes de dormirmos. Um dos patrocinadores dele é uma empresa de lâminas de barbear americana. Eles mandaram uma máquina pra que o Banha raspasse a cabeça pra luta. Estava tudo certo. Máquina na tomada, tudo funcionando, o primeiro gaiato resolveu abrir uma clareira na cabeça do nosso lutador. “Ah, vai zerar a cabeça mesmo, deixa eu fazer um moicano aqui”. Aí, além do moicano, se empolgou e fez um buraco do lado e outro atrás. Cheguei e acabei com a festa dizendo que o cara precisava dormir e que ia acabar logo aquele serviço, pois o dia seguinte seria sofrimento puro. O problema é que na hora que liguei a máquina pra deixar o Banha careca, cadê que a máquina funcionava?? Nosso querido Luiz Artur nessa noite foi dormir sendo considerado um dos top 3 pound for Pound the ugliest fighter in the world!!! (Um dos 3 lutadores mais feios de todos os pesos!!!)  A providência na manhã de sexta era tirar o peso mas antes tivemos que ir atrás de um barbeiro pra consertar o que um dia foi o cabelo deste casca grossa...

 

Quando Banha pesou de manhã, vimos o quanto ele perde de peso dormindo: quase um quilo e meio. Já estava com 210 pounds e agora só faltavam 4. Sim, 4 porque existe uma libra de tolerância em todos os pesos. Banha fez a sauninha dele, e uma e meia da tarde já estava com 205 libras e meia. Foi só esperar a hora da pesagem oficial.

 

Nosso assassino africano até quis dar uma encarada no Banha durante a tradicional foto com Udana Whiute (desculpem, é o costume recém adquirido de colocar U em todas as palavras que vejo!!)  mas como teve que olhar pra cima e ficou meio ridículo, Usuoukoudjou  acabou estendendo a mão depois da foto oficial. Voltamos pro hotel, depois de mais de uma hora esperando lá mesmo na arena, onde Banha comeu um prato de macarrão, 3 barras de granola, 700 gramas de banana passa, 1 litro de pedialite e 2 garrafinhas de Gatorade. No hotel, foi descanso e agora e esperar a hora da briga.

 

Duas coisas:

 

- Banha foi dormir com 220 pounds e amanhã deve lutar com uns 101, 102 quilos.

- Como não consegui ainda pensar num apelido para o “Felizardo” do momento, vou deixar pra contar as peripécias dele depois. Estou anotando tudo, podem deixar... Aliás, tô aceitando sugestões pro apelido, ok?

 

Vamos lá Banha, que hoje é dia de Briga!

 

Valeu!

 
Marcello Tetel | 17/10/2008 - 23:04
 
O Mercado Japonês – Parte 2

O depoimento do produtor japonês caiu como uma bomba na imprensa Japonesa, já que entre as afirmações que ele fizera, apontou o presidente da empresa detentora da marca PRIDE como presente numa reunião para ameaçá-lo junto com representantes da Yakusa. Isso rendeu uma reputação negativa enorme junto à emissora que transmitia o evento e que, conseqüentemente, dava exposição aos patrocinadores.

 

A repercussão aumentou com a intimação para que o presidente fosse à corte depor. A imagem e reputação da empresa foram caindo e a TV que transmitia o evento ficando cada vez mais encurralada, porque apesar da audiência mostrar que o evento devia continuar no ar, as pressões vinham de todos os lados, mas os resultados comerciais do evento o sustentaram no ar por algum tempo ainda.

 

Mas dessa vez quem acusou o golpe foi um grupo de patrocinadores que saiu do evento. Com lastro em caixa, o evento se sustentou ainda durante um tempo.

 

Chega a hora de mencionar Al Pacino, como fiz no texto anterior: “Vaidade, meu pecado favorito!”, pois acredito que se na época do ocorrido o presidente da empresa tivesse pedido o boné e se afastado para o bem da empresa, a boataria que resultou no distanciamento de patrocinadores e num segundo momento da TV, teria sido controlada e muito possivelmente o Pride continuaria por aí. 

 

Na verdade eles ainda continuaram por um tempo, e as receitas de pay per view americano, que eram um plus, se tornaram importantes na matemática do evento. Não só pela receita que trazia em si, mas também pelo boom que se anunciou com a chegada do reality “The Ultimate Fighter”, os promissores índices de audiência do pay per view do UFC e a conseqüente explosão do mercado americano.

 

O Pride sempre foi reconhecido pela pujança e por não acreditar na possível concorrência. Pra se ter uma idéia dessa postura do evento, houve um famoso lutador do evento que, apesar de dono do cinturão, tinha uma cláusula no contrato em que poderia lutar outro evento específico que poderia vir a ser criado. Como não acreditavam que o evento fosse ocorrer, permitiram a cláusula e assinaram o contrato. Pois bem, o evento foi criado, o lutador lutou tal evento e a relação entre ele e o evento ficou delicada por algum tempo devido a algo desnecessário.  O lutador tinha todo direito de lutar tal evento e se o Pride não achava certo, que não tivesse assinado tal contrato. Mais uma vez a famosa vaidade e o menosprezo à concorrência.

 

Da mesma forma, não imaginavam que seus talentos migrariam para o UFC e não tinham contratos tão bem amarrados assim que os fizessem permanecer.

 

O UFC já tinha quebrado a cabeça para fazer eventos no mercado japonês e os japoneses achavam graça, pois sabiam que eles é que entendiam daquele mercado. Da mesma forma, quando o Pride quis ir para América do Norte, como solução para a salvação do negócio, imaginou que soubessem como realizar, mas estavam em terras desconhecidas.

 

A conclusão foi a que conhecemos. A aventura americana do Pride foi um fracasso, a empresa fez mais uma edição ainda no Japão, e a ZUFFA arrematou o evento, na verdade, de olho nos contratos dos atletas e não em continuar com o evento.

 

Esse foi o fim da primeira fase da História do MMA na terra do sol nascente. No nosso próximo encontro, começaremos a falar sobre a segunda etapa do MMA japonês, com a chegada de novos eventos e como a adaptação à essa nova realidade do mercado tem impactado nos diversos segmentos do esporte mundo afora.

 

Se cuidem e até lá!

 
Marcello Tetel | 13/10/2008 - 15:46
 
O mercado japonês

Depois de amenizar os vossos olhos com uma leitura quase humorística, hoje vou começar a dar as minhas impressões a respeito do mercado japonês de MMA. Mas antes de falar da situação atual e dos áureos tempos passados e deixar que vocês comparem, precisamos mais uma vez falar algumas coisas sobre o povo, sobre a maneira de se negociar e sobre características inerentes a qualquer ser humano, seja ele nipônico ou não.

 

Vamos começar pelo último ponto em questão.  Características do ser humano.

 

Não sei se vocês já viram um filme com AL Pacino (Se não viram, eu recomendo!). Chama-se “Advogado do Diabo” nesse filme ele faz o papel do Diabo que manipulou um advogado até não poder mais. Não vou aqui contar o fim do filme, mas a última frase da produção de Hollywood merece ser citada. O diabo, ardiloso como tal, vira-se para a câmera e diz: “Vaidade – meu pecado favorito”.  Ou seja, esse é o mais fácil de se derrapar...

 

Até acredito que todos nós sejamos vaidosos em maior ou menor grau. Acho também que um pouco de vaidade não faz mal, pois pode motivar conquistas, sejam da ordem física ou profissional.  Apesar da motivação não ser das mais nobres, se essas conquistas chegam em função da vaidade, melhor assim do que não se conquistar nada. Chega de filosofar. O que importa é que tudo em excesso faz mal e isso, eu tenho certeza que todos aqui concordam.

 

Já falamos de vaidade, agora vamos falar de Japonês. Pela sua educação e maneira no trato com o próximo, o Japonês tem um código próprio de conversa, que ele leva para a mesa de trabalho. Eles se entendem, e esses códigos são usados corriqueiramente entre eles sem problemas. Pra vocês terem uma idéia, a negação é algo que chega a beira da falta de educação por lá. E muitas das vezes um ocidental objetivo e direto no ambiente profissional, sem saber como eles são, sai com a impressão errada e guarda expectativas sobre determinada negociação.

 

Quando ouvir um sim efusivo, desconfie de que você tem 50 a 60% de chances que o negócio dê certo. Pois aí, ele também acredita que o negócio pode ser bom. Mas até ruminar e bater o martelo, muita coisa pode acontecer. Se o sim não vier muito empolgado, seu caminho será muito complicado. É capaz de nada acontecer. Se você ou vir um “Maybe” (Talvez) perca as esperanças, isso foi um não. Agora, se você ouvir “Difficult” ou Very difficult” (Muito difícil) tire o cavalinho da chuva pois você acaba de ouvir um “Nem Pensar”. Repare que o japonês não usou a negativa em hora alguma.

 

Isso já criou muitos problemas aqui no Brasil no mundo do MMA. Imagine um empresário brasileiro ouvindo talvez. Agora imagine um lutador que ouvia de seu empresário um “talvez você lute o Pride”. O que se espera como comportamento desse lutador? Ora, ele já se sentia batendo manopla com aquela famosa luvinha azul nos vestiários do Saitama Arena. Brasileiro é um povo esperançoso como poucos e no mercado de MMA a esperança é presença constante. Muitos lutadores se sentiram enganados ou mesmo duvidaram da capacidade de certos managers por conta dessa falta de leitura do povo japonês. Quantos lutadores nós conhecemos que deram entrevistas dizendo que estavam indo lutar o Pride? Eles não fizeram isso por pura ilusão. Fizeram por esperança no que ouviram. O pior. Quantos ouviram um “Sim” que nunca se transformou em realidade? Portanto, é muito complicado tratar com o povo de lá.

 

Outra coisa que complica muito é que os Japoneses se utilizam muito desse artifício para não desagradar. Eles sabem que preferimos uma resposta direta. Mas nos “cozinham” com os famosos “Yes” e “Maybes”.

 

O Mercado Japonês foi muito pródigo, e em determinados momentos ficávamos encantados com as facilidades financeiras. Mas eles jamais perderam de vista a articulação política, o jogo de agradar times de MMA, distribuindo Yes e maybes a torto e a direita. Na vontade de emplacar cada vez mais lutadores dos seus times, os empresários mandavam mais e mais currículos de seus atletas, e para manter a relação com os times muito boa, os japoneses diziam centenas de sim e talvez. Aí as insatisfações nos times eram grandes, pois sempre havia quem se sentia preterido na “fila de espera”. E o que é pior; Atletas relacionavam seu desempenho em treinos com os medalhões já contratados, com suas chances de se apresentarem nos ringues da DSE.

 

Não existe um time sequer que não tenha tido um lutador ou mais de um deles insatisfeito com quem negociava com os japoneses. Num mercado do tamanho do nosso, a expectativa de lutar lá era como encontrar uma pepita de 100 kg num garimpo de ouro.

 

Esse foi um parêntese na defesa de alguns empresários que negociavam com o Japão.  Aos atletas que se sentiram preteridos e enganados vai a mensagem: Não foram os atletas os enganados. Foram os empresários. Talvez a única culpa deles seja não ter aprendido rápido o suficiente a entender as respostas e as repetiam para os atletas.

 

Mas não há como negar. O mercado não era bom. Era ótimo! Era sensacional, incrível! E os japoneses sabiam disso.  O Pride era uma organização medida em toneladas e não em quilos. O texto pode parecer difícil, mas chegamos agora na seção das perguntas e respostas.

 

Como pôde um castelo daquele tamanho ruir em menos de um ano?

 

A DSE sabia do seu tamanho, da sua pujança e das costas quentes que possuíam por conta de uma proteção “invisível” que sempre houve e haverá nos negócios no Japão. O problema começou com o evento INOKI BOM BA YE no fim de 2003.  O Pride era tão confiante da sua pujança financeira e sua liderança no mercado, que muitas vezes deixou campeões sem contrato renovado ou com aberturas para contratação por outros eventos na certeza de quem ninguém poderia pagar. Emilianenko Fedor lutou no evento que rivalizou com o Pride na véspera daquele ano novo. Mas a DSE não deixou barato. Tentou impedir a todo custo sua apresentação e na tentativa de vetar a participação do russo, usaram métodos não ortodoxos de convencimento com os produtores evento rival.

 

Vamos falar aqui apenas sobre o que é fato. Depoimentos na corte japonesa relataram uma intensa ligação entre a DSE e a Yakusa. Um produtor do Inoki Bom Ba Ye, que se viu obrigado a fugir do Japão, por conta da inadimplência com fornecedores e contratados daquele evento, declarou na corte, que foi impedido de fazê-lo pois se sentiu não só ameaçado, mas prejudicado pela intervenção dessa organização japonesa em favor da DSE, impedindo a celebração de contratos de patrocínio entre outros artifícios.

 

Parece sem sentido interromper agora, mas vamos falar no próximo texto das conseqüências desse depoimento e relacioná-lo ao pecado favorito do Diabo no próximo texto.

 

Até lá!

 
Marcello Tetel | 10/10/2008 - 13:21
 
A saga do Felizardo - parte final

Agora que vocês já sabem como o ser humano pode ser cruel, voltemos às crueldades.

 

Elas não faltaram e Felizardo era sacaneado diuturnamente. Se sentia testado o tempo todo, alternava bocejos longos, típicos de nervosismo, com mal humor e distribuição de patadas. É óbvio que cada patada era rebatida de forma sacana: “Qual foi Felizardo? Tá de brabo por quê? Deixa pra extravasar essa raiva na hora da luta.” E o pior pra ele, muito espaçoso e brincalhão, Felizardo sacaneava todos, fosse com apelidos, ou com pegadinhas. Desse dia em diante ele até tentou uma ou duas brincadeiras, mas a raquetada verbal de volta era infame: “Fica quieto aí Felizardo! Sossega e se concentra senão o gringo aperta o teu pescoço depois de amanhã!” Sim, eu disse depois de amanhã. O martírio de Felizardo duraria 48 horas...

 

Como a luta havia sido casada e acordada, não havia limite de peso e, portanto no dia seguinte não houve pesagem para Felizardo apesar de testemunhas mentirosas afirmarem para nosso amigo, terem visto o seu adversário na pesagem e que este estava rasgado, com mais de 100kilos, “Gigante!” nas palavras de outro malvado, requintando ainda mais a sacanagem.

 

Felizardo veio então até mim pra perguntar se não havia jeito de fazer a luta dentro de alguma categoria de peso, no que respondi que naquela altura, com contrato assinado, nem tinha o que fazer. Lembrei a ele que o combinado sai barato, e que ele leu o contrato antes de assinar.

 

Cada minuto que passava vinha um dar um update na central de notícias, contando alguma novidade do Felizardo, nitidamente acusando o golpe. Nessa altura do campeonato bicicleta não era mais o termo. A freada era de carreta...

 

A véspera do evento foi talvez a noite mais longa da vida de Felizardo, que encontrou mais um brasileiro sacana (Será que existe algum?) que se dispôs a fazer posições com ele no quarto antes de dormir. Quando os outros souberam que Felizardo estava treinando pra peleja no quarto, foram todos pra lá. Acho que Felizardo nunca viu tanta posição de chão no mesmo dia. Pelo calibre dos lutadores presentes, posso afirmar com folga que foi o melhor seminário de grappling jamais realizado. Cada um mostrava uma posição mais mirabolante e eficaz e lá pela décima - quinta posição alguém disse: “Pessoal, vamos parar porque Felizardo precisa descansar e pela quantidade de coisas que mostramos, é capaz dele não se lembrar de nenhuma amanhã.” A tropa brasileira evadiu do quarto e tenho certeza que Felizardo àquela altura não lembrava mais nem de saída de gravata, que dirá de toda aquela enciclopédia apresentada em menos de 20 minutos.

 

No dia da luta Felizardo nos privou de sua companhia no café da manhã e no almoço. Simplesmente se encastelou nos seus aposentos e seria impreciso da minha parte dizer que o serviço de quarto precisou fazer a recarga de papel higiênico naquele dormitório.

 

As horas eram cada vez mais longas, como costumam ser em dia de evento, principalmente pro lutador, que quer logo briga. O mais cruel dos brasileiros, talvez puto por saber que Felizardo havia dado uma olhada pra sua mulher, lançou a cereja do bolo. O Ápice da maldade. Pediu-me que arrumasse um par de luvas do evento e disse que quando Felizardo estivesse aquecendo pra luta dele, (Sim, o combinado era levar a encenação até o último segundo) ele lhe entregaria as luvas, enviadas pelo promotor dizendo que a comissão atlética não aceitaria um evento misto e que seria a luta seria de MMA e que tava disposto a pagar mais 20 mil a ele.

 

Alguns acharam que seria a sacanagem do século e estavam todos ansiosos com o desfecho, mas como disse anteriormente, Felizardo era muito amigo do lutador. Este se apiedou de nosso bravo guerreiro e mais tarde confessou achar que ele “espanaria o parafuso” e perderia totalmente a esportiva azedando o clima. Por isso, na van que levava os lutadores ao ginásio, confessou a Felizardo a armação toda.

 

Muito sacaneado como era de se esperar, Felizardo chegou a pensar em se insurgir contra mim, talvez por ser sempre um dos menores do grupo, mas não houve clima pra isso, já que todo mundo estava na parada e é claro, esse filho tinha paternidade múltipla. Na verdade ele até passou um tempo sem falar comigo, mas hoje nos falamos normalmente.

 

Essa foi apenas uma das peripécias de viagem. Outra hora conto mais.

 

Se cuidem

 
Marcello Tetel | 08/10/2008 - 10:55
 
A saga do Felizardo - parte 1

Bom, agora que já distribuí caneladas nas esperanças imediatas do maior evento do mundo desembarcar por aqui, vamos falar de assuntos mais amenos.

 

Todo mundo que conhece lutadores famosos acaba se orgulhando dessa amizade e muitos desses, de vez em quando, se perdem nessa amizade. Alguns, por desfrutar da companhia das estrelas em eventos internacionais, acabam vestindo uma armadura de lutador, ainda que isso não corresponda à verdade.

 

O episódio que vou narrar aqui se passou num evento num país fictício chamado Esbornia, onde estava talvez, a maior turma de brasileiros que um evento internacional já testemunhou.

 

Todos acomodados no Hotel e eis que o “amigo de lutador” que chamaremos aqui de Felizardo chega à cidade. Pra que a história faça sentido, vamos voltar um pouco no tempo. Ultimamente, Felizardo vinha sendo motivo de brincadeiras por parte de um grupo de brasileiros que se esbarram em aeroportos desse mundo afora.  A questão é que, apesar de praticante de artes marciais, Felizardo não possuía experiência alguma em MMA, porém em suas conquistas românticas além mar, não se cansava de narrar lutas fictícias e o pessoal sempre aliviando, afinal de contas para alguns, fins justificam os meios e ficaria muito feio desmenti-lo só pra que ele não desfrutasse de uma noite agradável. Acontece que ultimamente ele andava impossível. Era no embarque, onde pedia um jeitinho pra ir de executiva, era nos aeroportos, onde clamava por sala vip, era na chegada, que solicitava assento no transfer até o hotel.

 

Isso já andava incomodando o pessoal, porque apesar de companhia agradável, (Tanto é que viajou várias vezes como convidado desses lutadores) Felizardo andava passando das medidas.

 

Depois que todos se acomodaram no Esbornia Palace Hotel e foram ao tradicional encontro do lobby, que não falta em viagem nenhuma, testemunhamos numa roda de conversa, o relato incomodado do lutador dizendo que Felizardo passara das medidas dando até entrevistas na última viagem onde dizia: “Porque NÓS lutadores, temos uma carga de treino muito dura (...)”.  E lembro até o hoje do relato indignado do lutador dizendo: “Eu é que saio na porrada e será possível que o Felizardo agora virou lutador de tanto que viaja conosco??” Durante a estada na Esbornia ele manteve o padrão de comportamento. Ficou de olho em namorada de brasileiro, apareceu com as famosas e disputadas camisas do evento antes mesmo dos lutadores e por aí vai. Esse fato somado às insatisfações do famoso lutador, nos motivou a aprontar.

 

Como muitas das vezes chegamos para o evento no começo da semana e a luta é apenas no sábado ou domingo, em alguns momentos o ócio se instala e mente desocupada é a oficina do diabo...

 

Como amigo do promotor do evento, contei a ele sobre o que estava acontecendo e pedi sua ajuda. Como sempre há lutadores famosos assistindo a esses eventos e muitas das vezes, lutas simplesmente evaporam do card na semana do evento por contusão de algum atleta. A idéia era que um famoso lutador, que já estava no hotel, e que já tinha sido inclusive visto por todos os brasileiros, estava disposto a preencher o card do evento que perdera uma luta de última hora.  Propunha-se a fazer uma luta de grappling, uma vez que não havia se preparado para MMA, mas como havia um exército de brasileiros, reconhecidamente bons de chão, quem sabe não achava alguém disposto a testá-lo.

 

Naquelas rodas de conversas infindáveis onde as piadas somos nós mesmos e ninguém perde oportunidade de sacanear o próximo, levantou-se o assunto do lutador famoso. Eis que alguém pergunta: “E aí Felizardo? Tu não diz que é lutador?? Pula pra dentro dessa!!”   Foi como dar corda a um pré enforcado...  A resposta de Felizardo diante daquele silêncio e as risadinhas de canto foi como uma bola levantada sem bloqueio esperando uma pancada do Giba: “Luto ué? Pelo dinheiro certo luto com qualquer um!”  Alguém mais perverso ainda, botou mais pimenta no vatapá: “Ooooolha Felizardo! Não se empolga não que se o cara topa você fica todo cagado rapaz! Onde já se viu? Agora você tá se achando lutador???” Felizardo, diante daquele oceano de testosterona brazuca se sentiu desafiado e fulminou: “Rapaz, não lutei ainda por falta de bolsa, mas nessas condições aí faço com qualquer um!” Se auto-condenou nosso querido Felizardo.

 

Aí fiz o meu papel naquela comédia e perguntei: “Bicho, você sabe que sou amigo do promotor. Posso então, botar teu nome na pedra e batalhar uma bolsa boa?” Ele respondeu que bolsa boa seria algo como 10 mil. Eu me levantei e fui fazer a minha parte. Aliás, a mais fácil, pois Felizardo praticamente se jogou nessa roubada.

 

Depois da sesta todos os Brasileiros se encontraram de novo e cheguei ao meio da roda armado. Minhas munições eram o gringo dono do evento, o contrato de cinco páginas pronto e uma caneta. Falei para nosso amigo pseudo-lutador que estava de costas: “Aí Felizardo, esse aqui é o dono do evento. Tá aqui o contrato no valor que você pediu e o promotor vai falar com você sobre a luta.” Ele nem se deu ao trabalho de me olhar, mas até respondeu: “Porra, pára de sacanagem!” Mas quando alertado, se virou e viu o gringo realmente do meu lado e com o papel na mão, arregalou os olhos.  Desse momento em diante poderíamos facilmente trocar o nome do nosso bravo lutador de “Felizardo” para “Entristecido.” Mãos geladas no calor da Esbornia, lábios secos e alguns outros sintomas da famosa freada de bicicleta.

 

Eu torcia pra que o dono do evento não estragasse a cena confessando tudo, ou se denunciando com alguma risada. O que se viu a seguir, para minha absoluta surpresa, foi uma atuação digna de Oscar de melhor ator para o dono do evento. Ele disse ao Felizardo em esborniano (que Felizardo entendia bem) que a luta seria de grappling, mas as regras seriam diferentes: Duraria 10 minutos, mas teria uma pontuação diferente. Contaria pontos quem finalizasse mais o outro, ou seja, quando um batesse, a luta não acabaria, e ficaria assim 1X0 pra quem finalizou, a luta continuaria até o fim do tempo regulamentar, onde ganharia quem finalizasse mais vezes!!!!  (Não me perguntem de onde o gringo tirou isso, puro improviso de artista! Um dia ainda vou perguntar!!!) Antes que o Felizardo contestasse o absurdo da regra, o sacana do promotor explicou que só poderia pagar aquela bolada a um iniciante caso a luta se prolongasse por 10 minutos de entretenimento pois ele não poderia correr o risco de um brasileiro, que deveria ser excelente lutador e fora o único a aceitar o desafio do gringo, acabar rapidamente com o combate e deixar o público dele a ver navios! Atônito, Felizardo nem teve como dizer uma única palavra de contra-argumento, tamanho o tumulto que os brasileiros fizeram à sua volta. Uma caneta surgiu simplesmente do nada e antes que Felizardo se tocasse já havia assinado o contrato.

 

Estão gostando do causo e me achando cruel com o Felizardo?

 

Pois é, crueldade é assim que se faz, presta atenção: ESPEREM AÍ QUE QUARTA-FEIRA EU CONTINUO ESSA!!

 
Marcello Tetel | 06/10/2008 - 11:05
 
Soluções para o UFC vir ao Brasil

Na última vez que nos encontramos falamos sobre matemática e de como ela não fecha quando o assunto é o UFC no Brasil. Como ser do contra é fácil, e falar de problemas é cômodo, vemos pensar em soluções.

 

Como disse anteriormente, o primeiro passo é pesquisarmos o público que já temos e como conquistar novos adeptos. Esse passo é fundamental para termos embasamento para a grande conquista: Espaço na televisão. 

 

Espaço na televisão é a chave do sucesso. Precisamos encontrar uma maneira de colocar esse produto na TV. Alguns diriam que já estamos na televisão, que inclusive temos um canal exclusivo de lutas na TV a cabo e que estamos no caminho. Mas na verdade, o número de assinantes do canal não nos anima quanto ao futuro e como o tamanho do investimento é proporcional ao tamanho do mercado, precisamos aumentar o tamanho do mercado urgentemente.

 

O UFC foi adquirido pela ZUFFA LCC no fim de 2000 e por dezenas de meses os investimentos foram pesados e ineficazes. Durante algum tempo, não houve condições de competição com outros eventos como o PrideFC, na contratação de lutadores. O UFC sabia disso e não escondia de ninguém.  A situação parecia sem saída em 2005, quando os donos da marca já haviam colocado mais de 18 milhões de dólares no evento e o retorno parecia distante ainda.  A solução chegou com a estréia do reality show The Ultimate Fighter. Dali em diante o esporte aconteceu e o UFC se tornou popular o suficiente para decolar. A diferença básica é uma só. Na medida em que o esporte está na TV aberta não há chances de não ficar conhecido. Sobretudo hoje em dia, com esse conteúdo da TV aberta, que é de qualidade tão discutível. Mas como conversamos antes, o conteúdo do MMA vem sendo rejeitado e por isso não há parceiros comerciais que anunciem, que atrelem a sua marca ao produto. Enquanto vemos programas religiosos tomando latifúndios de tempo na TV aberta ficamos aqui, à beira do caminho. Só que o horário de 1 hora da manhã numa TV entre 3ª e 4ª colocação de audiência com 60 minutos entre conteúdo e comercial, custa em torno de 55 a 65 mil reais /mês, dependendo do dia da semana. Então antes de colocar o programa no ar, produzi-lo, pagar a todos, precisamos de anunciantes que desembolsem só de horário na TV, entre 650 a 720 mil reais por ano só pelo horário. E pasmem, isso se encontrar horário, pois há quem pague facilmente esse valor e como têm feito isso já há anos, têm preferência por se tratar de cliente fiel das transmissoras. Um horário de 30 minutos, para sermos mais humildes, seria mais razoável. O problema aí é que a TV precisa encontrar outra atração que feche com vc a hora, pois é muito mais difícil vender horário fracionado em TV aberta.

 

Desta forma acho que o primeiro passo é buscar números que possam embasar uma negociação junto à TV de forma a trazê-los como parceiros. Esses números são aqueles quantitativos e qualitativos aos quais me referi no primeiro texto. Convencendo a emissora da força, do poder de compra e da quantidade do público que gosta, podemos começar a virar essa mesa. Desta forma o esporte deixa de ser conhecido apenas por nós, e quando um atleta de MMA aparecer no vídeo, depois de algum tempo passa a ser reconhecido por aquele que fica sentado na frente da TV brincando de zapear com seu controle remoto. Sua imagem passa a ser formada e de lambuja a do esporte. Nesse aspecto temos um forte ponto a favor que com certeza será utilizado no momento oportuno e poderá ser o nosso diferencial de águas: Quantos de nós não nos flagramos parados na frente de uma TV assistindo aos gritos de Gustavo Kuerten? Quantos de nós não paramos o que fazíamos para assistir às piruetas de Daiane do Santos? Mas o Brasil tem tradição no Tênis ou na Ginástica Artística? Não, mas produziu talentos que nos fizeram acompanhar o esporte a ponto de não doer nos nossos ouvidos, termos como ACE ou CARPADO DUPLO.  O brasileiro é faminto por competição e vitórias e se temos chances de ganhar uma disputa, que seja de cuspe à distância, nós acompanhamos. Nesse momento vamos virar a página, quando tivermos regularmente que “morrer do coração” com as viradas espetaculares do Minotauro, ou simplesmente não acreditarmos na quantidade de “chumbo trocado” que Wanderlei Silva se dispõe a enfrentar na busca de um nocaute ou ainda acharmos que é “marmelada” uma luta de Anderson Silva, tamanha a facilidade com que passeia pelos seus adversários. Mas não adianta uma ação esporádica sem regularidade. Precisamos de tempo pra que o povo se acostume com toda essa novidade.

 

Pra fechar esse assunto, preciso dizer: Tenho certeza que o UFC desembarcará no Brasil. Mas precisamos trabalhar duro pra reunir condições de que isso aconteça. Comparo o UFC àqueles lagos de fazenda onde se comercializa o “PESQUE E PAGUE”.  Imagine que o Lorenzo Fertitta é dono da marca “Pesque e Pague”. Há lagos no mundo inteiro querendo fazer parte desse circuito, mas eles irão colocar a marca “Pesque Pague” nos lagos que haja peixes suficientes para que o Pesque Pague gere o maior  lucro. Não há dúvidas que as “Iscas Brasileiras” pescam muitos peixes, mas não adianta colocarmos as iscas no lago se ele está fraco de peixe.  Alguns ainda poderiam dizer: “Mas basta que eles invistam na produção de peixes e os lagos ficarão lotados!” Desculpem-me aqueles que pensam assim, mas essa responsabilidade é nossa. 

 

Para um evento como o UFC que tem o lucro que tem hoje em dia, investimento significa ganhar menos acreditando no potencial do mercado e para se acreditar no potencial do mercado precisamos dimensionar esse mercado para que a decisão de entrar mais cedo ou mais tarde aconteça de forma racional por parte de quem entra. 

 

Os japoneses, sábios que são, costumam utilizar um ditado quando o assunto é reestruturação de marca, conquista de mercado e afins: “Existem dois caminhos pra se chegar num ponto: O longo caminho curto e o curto caminho longo” – Onde o curto caminho longo é aquele atalho, aquela precipitação que nos leva ao ponto de origem várias e várias vezes e o longo caminho curto é aquele feito de forma pensada detalhada sem paixões e planejado. Aquele que aparenta demorar mais, mas é feito uma vez só de forma sólida.

 

A única coisa que posso afirmar hoje é que entrar agora seria capricho jogando dinheiro fora e isso pode atrasar ainda mais o curso natural das coisas.

 
Marcello Tetel | 03/10/2008 - 10:27
 
UFC no Brasil – Matemática, uma ciência exata

Conforme combinado aqui vamos nós conversar mais um pouco a respeito do UFC no Brasil. As possibilidades, expectativas e realidades.  No artigo anterior tratei o assunto de forma bastante racional, agora é hora de tomar a contramão dessa história.  Façamos aqui um exercício de imaginação e pensemos simplesmente que o UFC cogita o Brasil como possibilidade real para receber um evento.  Vamos agora pegar as calculadoras e começar a fazer as contas.

 

Em primeiro lugar precisamos nos basear no tripé de receita: Bilheteria, Patrocínio e Receita de pay-per-view.

 

BILHETERIA

 

O primeiro argumento para bilheteria é montar um card que atraia o público, que faça o fã comprar sua entrada. Isso é óbvio. O card de um evento é sempre montado a partir do “Main Event” e no Brasil não faria nenhum sentido que o main event fosse estrelado por algum estrangeiro. Precisamos de uma estrela brasileira de calibre para a luta principal.  Enfrentamos aqui o primeiro problema. Temos 3 lutadores que podem fazer essa luta principal em qualquer edição do UFC: Anderson Silva, Wanderlei Silva e Rodrigo Nogueira. Estes são os nomes que certamente convenceriam o público a prestigiar o evento ao vivo. Só que eles custam caro, bem caro...  Seus contatos já estão assinados e independentemente de onde o UFC venha  a utilizá-los eles já têm seu preço fixado. O mais barato deles não pisa no Octagon por menos de 120 mil dólares, e se vencer esse valor dobra! Então nossa conta já sai de 240 mil dólares de custo para um lutador apenas. Seu adversário provavelmente será algum outro lutador de calibre, caso contrário, não faria sentido lutar contra um desses 3, pois não faria sentido pra eles lutar contra algum não ranqueado. Até existem lutadores ranqueados relativamente baratos, algo em torno de 15 a 20 mil dólares.  Então temos um custo de aproximadamente um quarto de milhão de dólares para fazer uma luta apenas.  Alguém pode pensar na excelente solução de colocar um dos lutadores brasileiros mais baratos no evento principal e desistir dos caríssimos “medalhões”, mas aí o evento nem sai do papel pois não podemos esquecer que a outra, e maior  receita do evento vem o pay per view e sem um lutador de nome na luta principal o Pay per view americano não decola. (Ou vocês acham que a Zuffa vai abrir mão da maior receita deles só pra fazer um evento por aqui?).

 

Bom, agora temos que pensar em como pagar essa conta de uma luta apenas. (Calma, precisamos de mais 8 ou 9 lutas ainda). O ingresso mais barato do UFC custa 75 dólares (Só pra se ter uma idéia, não só os de 75, mas também os de 100 dólares para a luta entre Couture e Lesnar em Novembro já acabaram.). Evidentemente esse valor não combina com o mercado brasileiro, a não ser que estejamos prontos para uma enxurrada de ingressos encalhados. Então precisamos baixar os preços e conseqüentemente, entupir uma arena com capacidade de fazer essa conta virar. O Evento no Brasil com ingresso mais caro teve a arquibancada sendo vendida a 80 reais e a área vip valendo 250 dos nossos dinheiros. Isso significaria o ingresso mais barato a 45 dólares e o mais caro em torno de 140 dólares e teríamos que acomodar os outros preços aí no meio desse caminho. Podemos até majorar os valores dizendo que não se trata de um evento nacional e sim do UFC. Vamos aumentar esses valores em 25% para os ingressos mais baratos e 100% para os mais caros (Ficaremos assim com preços entre 100 e 500 reais, ou entre 55 e 280 dólares) Os ingressos que fazem a receita de um evento, comprovadamente são os mais baratos e os intermediários, porque é fato que os mais caros são poucos e muitos deles serão gentilmente cedidos a VIPS. (O UFC costuma ceder em média 2000 ingressos de todos os valores por evento.) Agora peguem as calculadoras e vamos ver quanta gente precisamos botar dentro do Ginásio pra fazer a conta virar. Se minha velha CASIO não me deixou na mão, preciso vender pouco mais de 4700 ingressos de 100 reais só pra pagar uma luta. Agora vamos falar do resto do card. Tive a idéia aqui de fazer uma pechincha pra resolver o resto da conta: Vamos tomar por base o último UFN. Eles gastaram pouco mais de 300 mil dólares no evento todo. Tiramos a luta principal do UFN e a conta abaixa pra 260 mil dólares. Já fiquei feliz agora. Só tenho que colocar outras 4700 pessoas pagando 100 reais no ginásio pra resolver o problema. Mas aí nosso amigo Dana White vai perguntar se eu estou louco com esse meu card. Como ele vai vender os famigerados “Buys” do pay per view nos Estados Unidos, a receita forte dele, com um card sem expressão?? Lembrem-se que o UFN é transmitido na TV aberta e os nomes principais do UFC estão nos eventos maiores obviamente atrás da grana do pay per view.

 

Acabei de me lembrar que não falamos ainda de outro custo: O de produção.... Como é que um produtor de eventos como eu pôde esquecer-se disso!? Bom pessoal, nós temos que pensar em todo custo operacional, desde passagens aéreas, hotel de todo o povo do UFC que trabalha no evento e do pessoal de TV que transmite o evento mundo afora, contratação de local, som e áudio, a famosa gaiola (Isso eles trazem dos EUA), pagar ao povo todo que vai trabalhar no evento, desde carregadores, passando por produtores e árbitros, Contratar o sinal de satélite pro evento ser transmitido nos EUA e outras coisas mais. Nada que outros 1500 ingressos dos mais baratos não paguem.

 

Bom, então chegamos à seguinte conta: Pra se pagar o evento com o dinheiro da bilheteria, precisamos vender algo em torno de 11 mil ingressos a 100 reais cada um.  Repito: Para não haver lucro algum, (Queria lembrá-los que a ZUFFA não é uma empresa sem fins lucrativos) precisaremos bater todos os recordes de arrecadação e de público. Isso tudo pra fazermos um card que o UFC provavelmente não aceitaria, pois o apelo de vendas de pay per view seria pequeno.

 

PATROCÍNIO

 

Calma pessoal! Nem tudo está perdido, vamos reverter esse problema econômico com a outra perna desse tripé de arrecadação, O Patrocínio!  Desculpem mas não resisti. Fui irônico mesmo, quase sarcástico e com um requinte de crueldade nessa minha afirmação...

O Patrocínio sempre foi algo desafiador no Brasil. O mercado de MMA sempre foi deficitário numa das pernas do modelo de venda de um evento esportivo. Qualquer evento pra ser vendido, precisa de exposição, isso é óbvio. O maior meio dessa exposição é a TV. A TV se baseia num outro tripé: Conteúdo, audiência e interesse comercial, o tal do patrocinador. Nessa equação, os 2 primeiros itens se tornam parcelas de uma adição e o resultado natural dessa conta é o terceiro item. Ora, se o conteúdo agrada e a audiência é boa até um mudo consegue vender as cotas de patrocínio. Basta escrever num papel os números!

 

O nosso problema é que a primeira parcela dessa soma não é bem vista no Brasil. O conteúdo tem muitos opositores por aqui, o que torna tudo mais difícil e apesar de termos boa audiência, a polarização da opinião sobre o conteúdo faz com que a soma não chegue à terceira perna do tripé, o tão acalentado patrocinador!

 

Ainda temos uma outra questão: A marca UFC já tem patrocinadores, com os quais o evento tem compromissos e a inclusão de outros patrocinadores nessa empreitada é uma operação delicada.

 

PAYPERVIEW

 

A renda de pay per view é vista como a maior contribuição financeira que o evento pode ter. O UFC costuma dividir ao renda de pay per view com as operadoras americanas, que assumem todo o custo operacional. O valor de 40 dólares para se assistir ao UFC faz com que o evento engorde seus cofres em 20 milhões de dólares por evento, uma vez que a média de vendas de pay per view no ano de 2008 ficou na casa das 500 mil compras por evento.  Isso nos Estados Unidos. Em outros países a matemática é diferente e atende a outros interesses que fazem parte da estratégia de divulgação e expansão da marca. Portanto, em alguns países é mais importante ter o evento transmitido do que a renda que possa ser gerada com ele. Um desses casos é o Brasil. Fontes não oficiais ligadas ao canal que transmite o evento dão conta que o número de vendas por aqui raramente passa a casa das 8 mil compras portanto essa receita não conseguiria contribuir muito para o fechamento da conta para que o evento no Brasil não fosse deficitário.

 

Pra que não joguemos nossas esperanças no lixo, na próxima vez que nos encontrarmos, vou tentar identificar aonde podemos começar a trabalhar para que o UFC venha a fazer parte da nossa realidade nacional ainda eu a médio longo prazo.

 
Marcello Tetel | 01/10/2008 - 15:26
 
O UFC no Brasil

Grande rapaziada, eu estou muito feliz com esse espaço onde vamos trocar idéias e dar uma geral nos bastidores do MMA.  A proposta desse blog é de tentar responder algumas perguntas, esclarecer algumas dúvidas a respeito de assuntos pertinentes aos negócios que o mundo do MMA envolve.

 

Como a essência desse que vos escreve ainda é a de um lutador, vou começar distribuindo caneladas e cotoveladas no desejo de quase todos aqui. Mas as caneladas são justificáveis e vou embasá-las pra que ninguém me veja como o cara do contra.

 

Ultimamente temos ouvido muito falar a respeito da expansão internacional do UFC e conseqüentemente o que vem à nossa mente é o sonho de termos uma edição do melhor evento do mundo aqui no Brasil. Adoraria que esse sonho estivesse perto de se concretizar, mas sendo realista, estamos ainda muito longe disso.

 

Pra começar, precisamos entender que a empresa que realiza o UFC, a ZUFFA LCC, é uma empresa com fins lucrativos. Quem já teve a oportunidade de negociar pessoalmente com o presidente da empresa Dana White, já ouviu uma frase que é quase um mantra pra ele: “In the end of the Day, the company that i run sells fights. This is my business” (A empresa que eu dirijo vende lutas. Esse é meu negócio).   Precisamos partir dessa premissa para entender o que vai se seguir: Os eventos do UFC precisam gerar lucro. Portanto, pra cada argumento que nos apegarmos, pra cada solução que dermos de agora em diante, façamos a pergunta que seria feita pelo Sr. Lorenzo Fertitta, maior acionista da Zuffa e responsável pela expansão internacional da marca UFC, a quem se dispor levar o UFC para qualquer país que seja. – “Quais as projeções de lucro com esse evento?”

 

Prioridades –

 

Quando se fala de expansão internacional de uma marca, o ponto chave é um só: CONSUMIDOR. Precisamos mapear esse consumidor qualitativa e quantitativamente. Quem é? Qual o poder de compra? Qual sua faixa etária? Sexo? Quais suas maiores aspirações? E por último, mas não menos importante, quantos são?  Hoje, não existe no Brasil nenhuma pesquisa séria, encomendada a respeito de quem é esse consumidor aqui. Não sabemos quantos, nem quem somos nós, os fãs desse esporte. Esse é o primeiro passo para muitas questões serem respondidas, para sabermos o que fazer, que frente atacar primeiro.  Qualquer número colocado na mesa não passa de chute. Alguns tentam se basear pelo número de compras de eventos de lutas no sistema pay per view e o número de assinantes do canal especializado em luta.  Esses números até nos animam, porque sabemos que o número de fãs é muito maior que o número oficial de consumidores. Quantitativamente ficamos otimistas. Será que somos o dobro, o triplo ou o quádruplo? Na verdade essa resposta é menos importante do que outra questão, uma questão de ordem qualitativa: Se o número de consumidores é o quádruplo, por que não consumem formalmente? Por que recorrer à pirataria? Aos meios da internet? A resposta é óbvia: Porque falta dinheiro. Então chegamos a um ponto importante: Não sabemos quantos são, sabemos que são mais do que podemos medir, mas também sabemos que não têm poder de compra.

Notem que o quebra-cabeça é bastante desafiador, pois alguns poderiam achar como resposta rápida para essa falta de grana uma saída simples. Por que a TV paga? Por que não a TV aberta? Dessa forma não haveria necessidade de “Jeitinhos” para se assistir aos eventos!!

 

Antes de enveredarmos pelo assunto televisão, vamos voltar às prioridades. A nossa, uma vez que todos concordem, está identificada. Vamos nos conhecer. Mas não estamos sozinhos nessa mesa querendo que o UFC venha para o Brasil. Precisamos saber quais são as prioridades de quem está do outro lado dessa mesa: O dono do show.  Será que o Brasil é prioridade?  A resposta deles coloca a bola no nosso campo mais uma vez: “Nossas prioridades são baseadas nas condições que o país nos apresenta.” Essa foi a resposta que eu ouvi...

 

Há coisa de poucas semanas Lorenzo Fertitta foi acompanhado de Chuck Liddell às Filipinas. Para se ter uma idéia da popularidade da marca no país, o terceiro maior shopping center do mundo foi escolhido como local para uma exibição de uma hora com uma simulação do treinamento do ex-campeão meio pesado da organização. Numa das praças de alimentação do shopping, retiraram as mesas e instalaram um ringue, onde Liddell passou uma hora entre bater manopla, pular corda, chutar aparadores-almofadas e treinar com seu sparring. Essa seção de treino de uma hora foi acompanhada por simplesmente quatro mil pares de olhos atentos. Sim, quatro mil pessoas foram assistir ao treino de Chuck.  Alguns brasileiros invejosos com esse dado diriam que a razão é a falta do que fazer, falta de opção de entretenimento por lá. Mas esse argumento cai por terra quando o próprio Liddell se diz surpreso de ser tão famoso num país tão distante. Sim mais uma vez, todos o conheciam. Não estavam lá por falta de opção. Estavam lá para vê-lo.  Lá vem outra pergunta: Porque estavam lá para vê-lo? Onde o assistem?  Devido a uma parceria com a ABS-CBN, o UFC é transmitido na TV aberta, o que torna o esporte e os atletas popularíssimos. 

 

Agora fica mais fácil entender porque Fertitta declarou após a viagem que acredita que as Filipinas deverá estar pronta para receber o UFC no verão do ano de 2009. Simples, aquele país hoje reúne condições muito mais favoráveis que outros, para que uma empresa com fins lucrativos possa “Vender lutas” como Dana White gosta de dizer...

 

Notem que o UFC não tem um lutador Filipino sequer que possa alavancar o card, mas por outro lado, os astros da organização se encarregam de fazer esse trabalho.

 

Como esse já ficou longo, continuo depois. Comentem e vamos trocar idéias sobre tudo isso. Amanhã preparem as calculadoras para começarmos a falar de números e o motivo pelos quais eles não fecham a matemática quando o assunto é UFC no Brasil. 

 

Espero por vocês!!

 

Se cuidem

 

Tetel

 
Marcello Tetel | 26/09/2008 - 14:16
 
 

Marcello Tetel é faixa preta de Jiu-Jitsu e vive nas artes marciais desde 1984. Professor de Jiu-Jitsu desde 1992, Tetel se tornou um homem dos bastidores a partir de 1998 quando começou a empresariar atletas. Professor de Jiu-Jitsu do famoso Abu Dhabi Combat Club em 1999, retornou ao Brasil em 2000 e desde então tem produzido eventos, empresariado atletas e comentado eventos para televisão.