Amigos praticantes: “Hoje é dia de aprender!” - Errado! Todo dia é dia de aprender!

Aproveito a proximidade de alguns grandes eventos de MMA para, embora não seja exatamente a minha praia, falar alguma coisa a respeito.

 

Quando o grande lutador Marco Ruas iniciou sua carreira internacional, exatamente no UFC , eu estava lá e participei ativamente da sua preparação.  É engraçado que uma das coisas que mais marcaram na luta final do Marco com o gigante  Paul Valerans não foi a técnica ou sua força, etc, mas uns simples “pisões” (se é que um pé 45 pode dar um “simples” pisão...) que pedi para ele dar no pé do adversário.  O “Polar Bear“, como era chamado, com seus 145kg e  2,08m não largava a grade de maneira nenhuma, evitando a luta franca e, naquela época, este expediente de segurar era legal. Marco não parou de pisar, obrigando o adversário a dançar como um “peru numa chapa quente”. O pé do Valerans ficou como uma verdadeira nadadeira vermelha, e os dedos colados uns aos outros. Paul me disse uns anos depois, no Brasil, que ele ficou dois meses andando de sandália... (fraturou quatro dedos) Coitado...

 

Me lembro bem que para a preparação do Marco para aquele torneio eliminatório de três rodadas no mesmo dia, em que se sagrou campeão, fazíamos para ele uma espécie de “circuito”, onde tentávamos reproduzir intuitivamente as condições que ele iria encontrar lá dentro do Octógono. Indo à final, faria três lutas no mesmo dia, que considero uma crueldade, e, praticamente sem tempo fixo, o desempenho muitas  vezes dependia do condicionamento físico do atleta.

 

Outro fato importante era a preocupação em tentar reduzir ao máximo suas inevitáveis contusões para estar pronto em 30 ou 40 minutos para a próxima “batalha”. Os “entendidos de plantão” daquela época diziam que o tal “circuito” era excelente para o condicionamento físico dele. Eu, que não era um especialista na matéria, procurava me apoiar nos preparadores de nome que estavam ao nosso alcance. Marco, entretanto, que era um grande atleta na acepção da palavra, nunca abriu mão de duas coisas na sua preparação: a corrida de fundo que fazia na areia da praia do Leme ou na até água rasa e a natação sistemática, quase sempre no CR Flamengo.  E também fazia musculação, fazia Levantamento Olímpico, e fazia treinos específicos de Boxe Inglês, outros de Muay Thai, onde era muito forte ,ainda também  de  Luta  Olímpica (Wrestling ) nos dois estilos (Livre e Greco romano ) com meu filho Beto, que aprimorou o seu  sprawl, e a nossa velha  Luta Livre, onde minha ajuda se fazia mais presente.  Completando, ainda batia saco e Punching Ball, fazia muitas aulas de alongamento e pulava muita corda.  Desculpem os amigos as repetições “muito”, ”e fazia“, “muito“, foi de propósito... Todos se cansavam só de assistir, era impressionante  sua disposição. Treinava finalmente o então chamado Ruas Vale-Tudo. Ufa! 

 

Se o sparing queria agarrar, ele chutava e socava, se ele queria “trocar” ele agarrava... atendendo sempre a definição do seu estilo que ficou famoso.

 

Hoje as coisas são bem diferentes, especialmente na preparação física.

 

Ouço os especialistas dizerem, por exemplo, que nosso campeoníssimo Cesar Cielo treina menos da metade do tempo que treinava o então campeão Gustavo Borges .

 

Como podemos ver, as coisas mudam, e cada vez mais as novas teses e orientações são lastreadas em estudos técnicos aprofundados e experiências de alto investimento.  Aquela pequena equipe improvisada de 15 anos atrás, que tinha na intuição uma grande inspiração, agora é uma equipe multidisciplinar, com três ou quatro vezes mais especialistas.

 

Assim, hoje, quem não acompanha, perde o bonde e fica para trás.

 

No “Bitetti Combat”, por exemplo, não fiquei satisfeito com o preparo físico de alguns lutadores brasileiros, embora cada um tivesse apresentado suas razões.

 

Tivemos a oportunidade neste ano de contar com a ajuda dos professores cubanos de Luta Olímpica, contratados especialmente pela CBLA para desenvolver a Luta no país. Todos que participaram de suas aulas constataram a profundidade de seus conhecimentos e a eficiência de seus métodos. Os Professores Pedro e Angel Torres conhecem preparação física para a Luta como poucos, e puderam nos mostrar como Cuba está desenvolvida nesta matéria.

 

Angel, que tem doutorado em preparação física, comentando um treino que era puxado para lutadores de MMA na nossa academia, me disse, espantado :

 

“Perguntei se aquele treinamento era técnico ou físico e me disseram que era tudo, técnico e físico...”

 

“Senhor Leitão”, continuou, “Aquilo não era nada. Estavam apenas cansando os participantes, sem ter nenhuma utilidade”.

 

Não era eu que estava puxando, mas percebi que eu também não sabia o necessário, pois faria algo parecido que também não serviria. A única diferença era que eu não me aventuraria. O meu ofício é mostrar e ensinar, com imenso prazer, a parte técnica da nossa Luta Livre tradicional.

 

“Cada macaco no seu galho”, pensava eu...

 

Só que eu não acreditava que fosse assim, a ponto de, alem de não ajudar, ainda poderia de alguma forma comprometer o esquema como um todo.

 

É incrível, mas nestas montagens de treinamento físico as coisas se parecem muito, mas nas suas eficiências são completamente diferentes.

 

Só como ilustração, me lembro que há aproximadamente 24 anos resolvi fazer uma pesquisa envolvendo mais de 50 assuntos ligados a Luta com 20 equipes participantes de dois Campeonatos Mundiais de  Wrestling realizados em Clermont- Ferrant , na França. Naquela época, Laptop, etc, era novidade e o serviço foi na “munheca”, como se diz...  

 

Hoje, quando releio o trabalho, me admiro, não imaginando como tive coragem de entrar naquela empreitada... (arroubos do restinho de minha juventude)

 

Um ponto curioso me chamou a atenção no Item referente às práticas usadas na preparação dos lutadores: Só havia duas atividades físicas entre aquelas mais de 25 praticadas e por mim selecionadas  que eram utilizadas  por todas  as equipes, permanentemente:

 

         1 = Trabalho com pesos  

         2 = Pular corda

 

O resto, uma equipe usava, a outra não, e assim por diante.

 

Quem eram então os atletas com melhor condicionamento físico?

 

Individualmente, alguns atletas americanos se destacavam, cuja regra era “GO,GO ,GO ... and GO!”, lutando num ritmo frenético que  se adapta à Luta Olímpica.

 

Na média das equipes, aparecia a da URSS, embora sem a exuberância física dos americanos, tipo “vaca premiada”.  Só que a seleção dos atletas soviéticos era inacreditável .  De milhares de praticantes de alto nível eram escolhidos apenas os em melhores condições. 

 

Já naquela época os técnicos e seus preparadores que se reuniam nos congressos técnicos já discutiam métodos e novas teorias de preparação física. O primeiro a ser “fabricado” pelos soviéticos foi o grande lutador super Campeão de luta Greco-romana, Alexander Karelin.

 

E, parece, deu certo, com tricampeonatos Mundiais e Olímpicos, Europeu, etc, Karelin simplesmente levantava os adversários fazendo uma alavanca invertida, ou seja, fazia força no braço menor! Incrível!  

 

Ah, me esqueci de um detalhe: Sacha (Karelin) nasceu na Sibéria em 1967, pesando mais de 7kg com 69cm!

 

Sei que não vamos preparar nenhum Karelin, mas pelo menos vamos tentar  aprender o máximo e escolher os caminhos  mais  produtivos para nossos atletas.

 

Nunca é tarde, RIO 2016 está ai!

 

Bons Treinos,

Roberto Leitão

 

 
Mestre Roberto Leitão | 11/10/2009 - 03:24
 
 

ROBERTO LEITÃO, o Mestre Leitão, é engenheiro, formado pela PUC-RJ, onde foi professor de Mecânica Aplicada, com mais de 50 anos dedicados à pesquisa, estudo e ensino da LUTA, uma das paixões de sua vida. Foi um dos introdutores da Luta Olímpica no Brasil. Considerado pela comunidade mundial como um dos maiores conhecedores da Luta Livre Tradicional (Submission ), com trabalhos divulgados em todo  mundo. Criador dos “Princípios Básicos” que coloca em prática até hoje em seus treinos diários, apesar de mais de 70 anos. Comentou para a TV Globo a Luta Olímpica nos Jogos Olímpicos. Autor do livro "Bio-Mecânica da Luta", ainda no prelo.