Dia de luta é sempre um dia tenso. Quem pensa que é tenso só pra lutador está enganado. Sofre todo mundo com a ansiedade, afinal foram meses de treinamento. Nessa hora, lutador se pergunta se o dever de casa tá perfeito, como o adversário vai estar, se o cara bate realmente forte e etc...
Quem pensa que não é do mesmo jeito com o time todo, tá enganado. Uma luta como essa do Banha, por exemplo, deixa o povo um bocado apreensivo. Pra vocês terem uma idéia, há um ano e meio atrás, Banha não pôde lutar no Max Fight de Campinas contra o Bolacha porque teve caxumba. Naquele mesmo mês, Sokoudjou calou a boca dos que o chamaram de sortudo depois da vitória sobre Minotouro, nocauteando também outra estrela do Pride, Ricardo Arona. Pois bem, cá estamos nós, 18 meses depois daquilo e Banha vai sair na mão no melhor evento do mundo contra esse cara!
Alguns me recriminaram por achar que era cedo demais pro Banha pegar um adversário desse quilate, que ele devia comer esse mingau pelas beiradas, que essa categoria era difícil demais e coisas desse tipo. Mas exatamente por confiar no potencial dele e por saber o tipo de trajetória necessária dentro do UFC eu pedi a Zuffa 3 adversários e eles me deram um dos que eu pedi. Tenho plena consciência do quanto Banha pode render e contra quem ele está pronto ou precisa de mais quilometragem. Pra vocês terem uma idéia, depois que ele ganhou o Art of War em Setembro do ano passado, ofereceram uma luta pra ele contra o Rogério Minotouro, que foi gentilmente declinada.
Mas vamos voltar ao que interessa. Podem ter certeza que ao mesmo tempo em que confio, surge a apreensão de ver o bloco na rua. A mesma coisa acontece com os treinadores. Tenham a certeza de que eles ficam do mesmo jeito. Ainda mais no caso deles, que convivem diariamente, que apanharam do Banha durante 15 semanas, que deram esporro, que corrigiram, que suavam juntos. Para esses caras, a hora da verdade passa com a metade da velocidade. Queriam mesmo era que o dia começasse às 4 da tarde e não às 10 da manhã.
Sim, 10 da manhã. Foi a hora que o Banha acordou. O sono dele, na visão de quem estava na cama ao lado, foi tranqüilo. É evidente que as visitas ao banheiro durante a madrugada foram constantes porque afinal de contas, ninguém fica impune a litros e litros de repositores e água. Alguma hora ele ia ter que esvaziar aquele tanque.
Mas de uma maneira geral, pareceu mais um urso hibernando esperando à hora de sair da caverna e ir procurar comida. O problema dessa hibernação é que o urso ronca... Não só ele, mas os treinadores também! Na verdade, se eu fosse colocar uma flauta na boca de cada um, teria regido a nona de Bethoven. Tá certo que seria meio desafinada, mas a “Orquestra de roncos do Butantã” tava forte...
Por falar em sono intranqüilo, pude presenciar pela primeira vez em minha vida uma luta de alguém dormindo! Havia certo individuo no quarto, que ainda não foi batizado por mim com apelido algum (fiquei esperando sugestões, mas vocês não colaboraram...), que simplesmente agredia o travesseiro durante o sono. Nunca vi alguém se virar tanto de lado na cama. Se mexer na cama é normal, ok, mas pular pra lá e pra cá jogando o travesseiro pro lado foi meio brabo. Tava até respeitando o rapaz, mas quando recebi uma cotovelada na canela lá na minha cama tive que acordar o cara. Fiquei na dúvida entre Dormonid e Gardenal, mas acabei sem prescrever nada mesmo, afinal não sou médico.
Quando o urso acordou, pra variar, tava faminto. Recebemos a visita de alguns amigos brasileiros que vieram da Irlanda para a luta e fomos ao café da manhã. Daí pra diante foi espera. Banha ficou no quarto fazendo alguns deveres de casa para patrocinadores, assinando camisas e autografando posters e logo após, adivinhem o que foi fazer? Almoçar, lógico.
Bom, dessa vez não deixamos aquele nosso lutador da madrugada pedir a comida. Ficamos com medo do que viria a seguir. Durante a viagem ele havia pedido suco de maçã (Uepol Juice), pediu também um copo com bastante gelo, que batizou de Uaice. (Será que esse gelo era mineiro????). Enfim, qualquer palavra que começasse com vogal ou a letra W, passava a receber pelo menos umas 8 letras U de acréscimo. WHAT era impronunciável, cada vez que ele repetia, vinha com mais um U de acréscimo. E o WHO? Nossa mãe do céu! Parecia um grunhido!!! Aliás, o sanduíche que comemos naquela manhã, segundo ele, foi comprado no SÂUBAUEI. (Se vocês não entenderam, foi no Subway...) Testemunhas mentirosas juram que ele agradeceu ao serviço de quarto com um sonoro Utenquiul, mas aí eu acho que já foi maldade de amigos próximos. Agora, ver alguém dizer que não fala inglês pronunciando em alto e bom som “NO SPINGLICH” poderia ser até propaganda do Credicard, não tem preço! Shakespeare já havia dado oito rolamentos na tumba. Tudo bem que o cara é lutador também, mas precisava agredir a língua inglesa daquela forma????? Vou aliviá-lo de outras peripécias da viagem, pois como havia pouca gente nessa, ia ficar muito fácil matar a identidade e não estou aqui pra apontar os santos. Só conto os milagres...
Lembrei todo mundo que nosso vôo de volta pro Brasil era 6 da manhã logo seguinte, e deixaríamos o hotel às 3 da matina. Disse que depois do evento provavelmente teria festa e só voltaríamos ao hotel bem tarde, portanto seria sábio da nossa parte já deixar tudo pronto. Pra não deixar ninguém nervoso não disse a real necessidade daquilo. Não haveria festa nenhuma depois do evento, mas eu previa uma luta de pancadaria pura e as chances de vitória do Banha eram diretamente proporcionais ao estrago que ele poderia sofrer. Fiquei preocupado de ele ter que ir pro hospital tomar uns pontos depois da luta e se não estivéssemos organizados, acabaríamos perdendo o vôo pra casa. Coisa administrativas que me cabem, mas que não precisam ser ditas ao atleta nem aos técnicos pra não criar tensão.
Nesse meio tempo, chegou Fernando Kallás, repórter da GloboNews que foi a Birminghan e acompanhou o dia de luta do Banha. A matéria vai ficar um barato, pois mostra um lutador desde o momento em que está no quarto, arrumando mala pra ir pra arena, fala de seus sentimentos nesse momento e tal e é óbvio, faz todos os bastidores do evento.
Cinco e meia da tarde, chegou a hora de ir pra arena, que aliás estava sold out. Todos os 10 mil ingressos vendidos. O preço mais barato 40 pounds (Faço aqui um parêntese sobre aquele velho assunto do UFC no Brasil. O ingresso mais barato lá custava em torno de 150 reais pessoal!!)
Chegamos na arena com o evento já acontecendo. Como o Banha era main card, ficamos no hotel mais tempo. No vestiário dele, compartilhamos a presença do casca grossa que também pode ser considerado Pound for Pound o lutador mais fanfarrão do mma, Akihiro Gono. Pra vocês terem uma idéia, depois do aquecimento dele, teve um ensaio com a dança que ele fez na entrada no ringue!!!! E quem fazia a coreografia errada tomava esporro, surrreal!!
Enquanto isso Banha deitou no edredon que trouxe do hotel e fechou os olhos, mas acho que não chegou a cochilar. Logo depois um inglês entrou no vestiário pra colocar a atadura na mão dele. Banha pediu uma atenção especial pra mão esquerda, pediu que o experiente cutman fizesse aquela mão com carinho, pois seria dali que sairiam as maiores bombas. O inglês sorriu e batizou a mão dele de “Nightness” numa referência à escuridão que se seguiria à pancada daquela mão. Banha adorou o apelido, chegou a repetir em voz alta Luiz “Nightness” Cane, mas eu acabei com as esperanças dele. Não ia ser agora que ele ia deixar de ser “Banha”, já era...
Bom, Banha aqueceu, orou e segurou a emoção, pois tenho certeza que se lembrou da recém partida Vózinha querida. Chego a me arrepiar, mas acho que aquela velhinha simpática, que só vi pela foto que ele me mostrou, estava espiritualmente conosco ali, e apesar de achar que aquele não era o ambiente para uma bondosa senhora, seu neto estaria indo trabalhar dali a poucos minutos e como vovó é mãe 2 vezes, ela não se importaria com o ambiente, só queria mesmo proteger seu netinho (netinho não, netão!!)
Aí o Banha foi lá e lutou. Isso vocês todos viram. Viram um primeiro round onde ele se preocupou em agüentar a tempestade, como Joe Rogan falou durante a entrevista, mas o mais importante: Se movimentou muito e frustrou Rameau, pois a cada chute, a cada soco que tomava, Banha continuava andando pra cima. Isso quebrou o espírito do Camaronês, que esperava resolver aquele problema que estava na frente dele em cinco minutos. Como só podem entrar 2 no octagon, ao invés de ficar parado no meu banquinho, fui lá do outro lado ver o que Dan Henderson tava falando pro camaronês, tentar pescar a estratégia dele pro segundo round e tentar prevenir o Banha. Sokoudjou estava morto. Pareceu-me ter tentado tudo o que podia no primeiro round. Não tinha mais armas pra mostrar. Dan chegou a sugerir que ele tentasse mais quedas e pontuar o segundo round num “ground n’pound” pois já havia ganho o primeiro round e dessa forma poderia se recuperar e arrumar fôlego pro terceiro e decisivo round.
Enquanto isso vocês que assistiram a luta ao vivo, ouviram Helio e Serginho dando esporro e chamando o Banha pra luta. Banha precisava responder mais aos golpes de Sokoudjou,. Ninguém disse a ele, mas havia perdido o primeiro de 10 a 9 e precisaria mostrar mais no segundo.
Logo no começo do segundo round Hélio mandou ele chutar por dentro. Só que o menino calça 46, e com uma pata daquele tamanho à uma distância daquela, acertar a coquilha do camaronês era 85% de chance. Não deu outra, e ali me preocupei. Vi o filme do James Irvin na estréia do Banha no UFC passar na minha cabeça. Um adversário assustado, sem saber como vencer poderia achar num golpe ilegal uma maneira desonrosa de sair dali com a vitória. Foram segundos, mas eles passaram devagar na minha cabeça e rezava pra que o Camaronês fosse macho. Diferentemente de Irvin, ele mostrou o que tinha embaixo da coquilha que o Banha acertou e voltou pra briga. Graças a Deus, o camaronês era homem de verdade e voltou pra luta!!!
A luta continuou e Banha já estava nitidamente mais confortável no octagon. Sokoudjou já não era mais o mesmo do primeiro round, mas não tava morto. Deu um chute pulando que parecia de videogame. Helio ainda pediu mais um chute por dentro e eu disse a ele que não pedisse mais aquilo, pois certamente o Banha não correria mais esse risco e podia travar. Melhor na costela. Banha tava caçando já o camaronês, mas só de mão. Supliquei ao Helio e ao Serginho que ele colocasse os joelhos, porque no primeiro round, a única joelhada que ele deu foi perto da gente, e a cara de choro do camaronês me surpreendeu. Quando já preparava os meninos pra entrar pro intervalo do segundo round, o Banha manda lá do outro lado do octagon uma joelhada que fez o camaronês confessar até os pecados que não tinha cometido e aí, logo depois, a “Nightness” entrou em cena. O assassino africano desceu e não contei, mas acho que a tal da “Nightness” deu o ar da graça mais umas quinze vezes antes do juiz apartar.
Só alegria. O cara derrubou na mão um top 10 que havia nocauteado outros 2 brasileiros, também top 10. Falei brevemente com Joe Silva na entrada do Octagon e ele chegou a perguntar por que demorou tanto. Na hora fiquei achando implicância, mas agora, com as emoções em baixa rotação vejo que eles não deram o camaronês ao Banha à toa. Eles confiam no Banha e acham que ele vai longe.
Muitas risadas, Banha absolutamente doido, cumprimentando a todos que passavam, mas tava na hora de encher o potinho. Logo depois da luta tem o exame anti-doping e ele foi escalado pra fazer. No caminho de volta depois do xixi, fomos falar com Rameau. Triste no vestiário, ele deu um sorriso, apertou nossa mão e voltei com a impressão de que veremos um lutador melhor de agora em diante. Acho que quem pegá-lo de agora em diante vai cortar um dobrado ainda maior, porque tenho certeza que ele vai voltar melhor de gás e menos falante ainda... Entrevistas pós-luta, fotos, e mais fotos e fomos pra arena assistir a luta final. Bisping está se transformando numa espécie de Beckham do MMA. Impressionante ver a torcida local que ao invés de gritar seu nome, gritava “England, England!“ Por aí vocês calculam como estava a arena. A luta foi uma briga de foice no escuro com Leben tentando a patada de esquerda e o Bisping só machucando o doido. Eu e Banha em pé assistindo os segundos finais do terceiro round, protagonizamos uma cena engraçada.
Era a nossa contagem regressiva rezando pra que a luta fosse pra decisão, pois se houvesse um nocaute ali, certamente seria o nocaute da noite. Quando ouvimos o som do fim do round, comemoramos como se fosse gol, pois as chances do KO da noite triplicaram.
Banha depois disso foi chamado pra press conference, onde anunciaram os prêmios da noite e Udana Uwhite (Desculpem mas tá difícil voltar ao normal...) falou sobre a categoria lightheavy weight e disse que Banha agüentou a tempestade do primeiro round e picou Sokoudjou em pedaços no segundo round. Antes de ir embora Dana me puxou num canto e disse: “Man, your boy is sick! Congratulations!”
Agora é hora de voltar pra casa, Banha vai curar as bicheiras. Seu cotovelo parece uma bola de tênis já há 2 meses, fazendo pulsão 2 vezes por semana pra tirar líquido sinovial. Mas não podia deixar essa luta passar. Agora deve entrar na faca, botar o corpinho em ordem e esperar o próximo trabalho.
Contra quem será? Isso é o que veremos.
Fiquem com Deus e até a Próxima!
Se cuidem,
Tetel
PS.: Vó, obrigado pela proteção em nome de todos. Agora vá em paz e descanse, a Sra. merece!