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A fonte de inspiração de Carlson Gracie

por: Marcelo Alonso
em 21 de fevereiro de 2017

Primeiro símbolo da Academia Carlson Gracie foi um galo - Foto: Marcelo Alonso

Primeiro símbolo da Academia Carlson Gracie foi um galo – Foto: Marcelo Alonso

Quem conheceu o saudoso mestre Carlson Gracie lembra que o primeiro símbolo de sua academia era um galo. Aos que não entendiam o mestre se apressava em explicar: “Os galos são os únicos no reino animal que brigam por instinto e só param quando perdem os sentidos”. E foi esta proximidade entre a filosofia Gracie e o mundo das brigas de galo que me fez aceitar um convite feito por Carlson para conhecer uma rinha e entender um pouco melhor de onde vinham tantas gírias e curiosidades que já estavam incorporadas ao mundo das lutas.

Lembro como se fosse hoje. Era uma tarde chuvosa de um sábado em dezembro de 1999. Estávamos Eu, Carlson, Paquetá e Rinaldo almoçando quando o mestre nos convidou para acompanhá-lo em um “clube de galos”. Inicialmente declinei, afinal, sempre abominei qualquer tipo de rinha entre animais, mas graças ao meu faro de jornalista percebi a tempo que aquela poderia ser uma oportunidade preciosa de entender o espírito Carlson Gracie e sua capacidade impressionante de formar campeões.

Quando entramos naquela luxuosa casa localizada na Barra da Tijuca a impressão que tive é de estar entrando num campeonato de Jiu-Jitsu no Tijuca Tênis Clube. Ao redor de uma enorme arena quase 30 pessoas gritavam ensandecidas enquanto dois galos se engalfinhavam num circulo acarpetado. “Vai que é Mutuca; Este frango d´água, corrido”. Estes e outros termos correntes no vocabulário do mundo do Jiu-Jitsu me fizeram começar a entender de onde Carlson havia tirado sua fixação em valorizar mais seus atletas de brio. “Tenho pavor de galo mutuca, imagina homem”.

Carlson parecia uma criança na Disneylândia e fazia questão de me explicar cada detalhe. Achei curioso o fato de os galos também serem divididos em categorias de tamanho e peso: leve (61cm – 2600g), médios (65cm – 2900g) e pesados (74cm – 3600 g) e antes de entrarem no ringue também passarem por um processo de preparação onde eram colocadas biqueiras de metal e esporas de plástico (2,5cm). Segundo me explicou Carlson, as lutas eram disputadas em 3 rounds de 15 minutos por 5 de descanso. Se o galo deitasse ou parasse de lutar era vencido por tuco (nocaute em galês). O combate também pode terminar empatado.

A RINHA GRACIE

Carlos Gracie teria trazido as rinhas de galo de Belém para o Rio, na foto, comandando uma com o irmão Hélio – Foto: acervo pessoal - família Gracie

Carlos Gracie teria trazido as rinhas de galo de Belém para o Rio, na foto, comandando uma com o irmão Hélio – Foto: acervo pessoal – família Gracie

Carlson não foi o primeiro Gracie a se inspirar na valentia dos galos, a relação da família com as rinhas começou com seu pai, Carlos, que foi um dos introdutores da prática no Rio. “A primeira rinha de galos do Rio se chamava academia, pois foi aberta nos fundos da primeira academia Gracie (Marques de Abrantes 117, no flamengo) assim que meu pai chegou de Belém em 1925”, me revelou Carlson entre um combate e outro.

Segundo Carlson, seu pai tinha fama de ser tão bom treinador de galos que uma vez treinou uma galinha e ela ficou tão boa brigadora, que chegou a vencer vários galos. Verdade ou não, o fato é que, posteriormente, pelo menos nos ringues de Vale-Tudo, seu irmão Hélio e seu filho Carlson provaram estar muito bem treinados.

Outra curiosidade que descobri nesta reportagem foi que Carlson levou vários galistas para o mundo do Jiu-Jitsu. Um bom exemplo é o faixa preta Alberto dos Santos. Filho de Antonio Apaga-Vela dos Santos, uma espécie de Greg Jackson dos galos de Carlson. “Ele treinava meus galos e eu ensinava Jiu-Jitsu para o Albertinho”. A troca foi justa. Albertinho virou faixa preta, campeão brasileiro e hoje vive dando aulas em Miami. Apaga-Vela pagou na mesma moeda e fez vários campeões para o Gracie. “Fizemos muitos campeões como o Bulova, Alcipão, Piolho do Cão, Belzebu, Swástica e galo-tiro”, contou Carlson enumerando seus prediletos.

CHUTE BOXE E AS RINHAS

A ligação entre as brigas de galo e o mundo da luta não acabam aí. Quando começaram a lutar Vale-Tudo, os alunos de Rudimar Fedrigo (Chute Boxe) recorreram a um amigo de rinhas e aluno de Carlson, que morava no Paraná. Antônio Carlos (Nico) teve participação fundamental na adaptação dos especialistas de Muay Thai a luta de chão.

GALINHA BRASILEIRA + GALO JAPONÊS

Nesta reportagem, Carlson trouxe a tona uma outra coincidência curiosa entre homens e galos. Segundo o Gracie, os galos japoneses eram os mais técnicos, mas perdiam para os brasileiros na valentia. “O galo japonês puro é “mutuca”, se não ganha rápido, corre. A melhor cruza que tem é o galo japonês com a galinha brasileira. A galinha brasileira segura a “mutucagem” do galo japonês, fazendo a melhor raça de galo que existe”, me contou o expert.

A LENDA DO SALVA-GALO

Após as batalhas que podem durar 45 minutos, os combatentes são tratados com salva-galos e colocados em estufas - Foto: Marcelo Alonso

Após as batalhas que podem durar 45 minutos, os combatentes são tratados com salva-galos e colocados em estufas – Foto: Marcelo Alonso

Quem foi aluno de Carlson Gracie tinha até medo de falar em machucados e contusões próximo ao mestre. Lenda trazida por Carlson para o meio do Jiu-Jitsu é a utilização dos “salva-galos” (antissépticos usados para curar os machucados dos galos após as rinhas) em seus lutadores. “O Salva-galo é uma mistura de plantas que ninguém sabe como é feita. Ele cura tudo, é uma formula milagrosa. Sempre que um lutador meu se machuca, coloco o salva-galo e é tiro e queda”, me garantiu na oportunidade Carlson Gracie contando que uma vez a fórmula milagrosa salvou Carlão Barreto após uma luta sangrenta no IVC. “Ele abriu um corte enorme no supercílio e levou oito pontos, eu botei o salva-galo e no dia seguinte tinha cicatrizado o corte”.

Carlson e uma das suas paixões - Foto: Marcelo Alonso

Carlson e uma das suas paixões – Foto: Marcelo Alonso

Lembro que quando saímos do evento tomei uma bronca quando revelei que continuava não gostando de rinhas. “Vai me dizer que ficou com nojinho. Que isso, rapaz! A briga da natureza do animal. Um frango de corte vive apenas 72 dias até ser abatido. Um galo de briga vive de 15 meses a 5 anos, depois ele se aposenta e fica só para cruzamento. Além de tudo gera empregos”, tentou me convencer o figuraço, que odiava ser contrariado.

Apesar de todos os argumentos Carlson Gracie não me convenceu, mas certamente me ajudou muito a entender melhor um princípio básico do jornalismo: nunca faça uma matéria com idéia pré concebidas sem ouvir as duas partes. Como biólogo de formação nunca me imaginei passando próximo a uma rinha de galos, mas como jornalista sai daquela experiência fascinado e até hoje agradeço ao Carlson por ter me ajudado a entender melhor o mundo Gracie e a profissão que escolhi.

Dicionário do galista

Mutuca – galo fujão

Corrido – galo que foge da luta

Galudão – homem libidinoso

Mangalhado – quando o galo abaixa a cabeça (indicação de que vai perder)

Frango D’água – galo ruim (fácil de ser vencido)

Cantor de galinha – quando está com medo canta como uma galinha

Escoveiro – galo sparring, que serve para treinar os galos bons

Galo tiro – craque das rinhas

Tuco – nocaute

Eriçar o galo – aproximar os galos para deixá-los nervosos e prontos para a briga

Esgana-galo – estrangulamento

Cura-galo/Salva-galo – remédio usado em galos e alunos de Carlson

  • "Carlos Gracie teria trazido as rinhas de galo de Belém para o Rio, na foto, comandando uma com o irmão Hélio – Foto: acervo pessoal - família Gracie"
  • "Carlson e uma das suas paixões - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Carlson e uma das suas paixões - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Carlson e o amigo inseparável, o treinador de galos Apaga-Vela - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Primeiro símbolo da Academia Carlson Gracie foi um galo - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Carlson ao lado do quadro que indica os combatentes por nome, cor, peso, medida e também pela valentia (corrido ou não) - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Carlson observando uma briga no suntuoso clube de casa de galos no Rio de Janeiro - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Os combates podem durar até 45 minutos - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Após as batalhas que podem durar 45 minutos, os combatentes são tratados com salva-galos e colocados em estufas - Foto: Marcelo Alonso"
  • "O espírito guerreiro sempre foi um dos diferenciais dos alunos de Carlson - Foto: Marcelo Alonso"