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Os clássicos do Pride GP 2005 e a consagração de Maurício Shogun

por: Marcelo Alonso
em 20 de dezembro de 2016

Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei - Foto: Marcelo Alonso

Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei – Foto: Marcelo Alonso

Se houvesse uma eleição para escolher o melhor evento de MMA de todos os tempos, certamente a final do Pride GP dos médios, realizada em Tokyo, no dia 28 de agosto de 2005, estaria entre os mais votados.

Nesta noite, além de assistir ao tão aguardado confronto entre Wanderlei Silva e Ricardo Arona, os fãs japoneses puderam ver o nascimento de Maurício Shogun, que nocauteou na mesma noite Alistar Overeem e Arona, vingando o parceiro de treinos e se transformando no novo Número 1 dos médios. Para completar, Fedor e Cro Cop fizeram um lutaço valendo o cinturão dos pesados e Werdum conseguiu sua segunda finalização no evento.

Como vimos na última edição da PVT Mag, depois de eliminarem dois lutadores cada, Ricardo Arona, Maurício Shogun, Wanderlei Silva e Overeem se classificaram para a final do torneio, que foi realizada dois meses depois na mesma Saitama Super Arena.

Obviamente os organizadores não colocariam os dois atletas da Chute Boxe para se enfrentarem na primeira luta da noite, e depois das alfinetadas entre Overeem e Wanderlei, acreditava-se que os promotores colocassem os dois para se pegarem, mas se isso ocorresse perderiam a chance de realizar o combate que deu origem à rivalidade entre Chute Boxe e BTT: Ricardo Arona e Wanderlei Silva.

Desde o desentendimento no café da manhã no Tokyo Hilton no Pride 16 que os dois sonhavam em se enfrentar e os japoneses não perderiam esta chance.

Wanderlei x Arona e a fúria do guerreiro

Encarada entre os rivais foi tensa - Foto: Marcelo Alonso

Encarada entre os rivais foi tensa – Foto: Marcelo Alonso

Uma reportagem de 10 páginas publicada pela maior revista especializada do Japão, a Kakutougi Tsushin, explicando todos os capítulos da rivalidade entre BTT e Chute Boxe e relembrando os confrontos que davam uma vantagem de 6 x 4 para a equipe curitibana aumentou ainda mais a expectativa em torno do mais pessoal confronto do Vale-Tudo mundial.

Anos depois daquele desentendimento no café da manhã do hotel, finalmente Wanderlei e Arona voltaram a se encontrar olho no olho. “Vou te arrebentar”, prometeu Wanderlei. “Vamos ver amanhã no ringue”, respondeu Arona. Como eu era o único jornalista brasileiro na pesagem, fui praticamente juntado pelos colegas japoneses ansiosos em entender o significado daquela troca de gentilezas diante da gritaria das duas equipe. “Vamos Arona!!!!” , “Heeeeeyyy Wandeco !!!”

No dia seguinte no ringue, porém, a animosidade da pesagem deu lugar a um enorme respeito mútuo. Ao contrário das lutas anteriores, Wanderlei não partiu para cima de Arona, se limitando a acertar chutes na parte interna da coxa. Do outro lado, o atleta da BTT respondia na mesma moeda, esperando a hora certa para dar o bote e levar o curitibano para o chão.

E a oportunidade ocorreria de maneira surpreendente, com Arona desequilibrando Wanderlei após um low kick na perna do oponente. Quando Wanderlei caiu, Arona partiu para o pisão, entrando na guarda de Wanderlei, de onde passou a aplicar seu ground´n pound que definiria o primeiro round em favor do carioca. No final do round o juiz voltou a luta em pé e deu um cartão para Wanderlei.

Arona venceu o 1º clássico - Foto: Marcelo Alonso

Arona venceu o 1º clássico – Foto: Marcelo Alonso

Ciente da vantagem de Arona no 1º round, Wanderlei voltaria mais agressivo no 2º, mas Arona continuaria surpreendendo ao aceitar a trocação. No fim do round Arona voltaria a derrubar Wandelei. Para mostrar superioridade, o atleta da BTT chegou a socar com as duas mãos. Quando o juiz decretou o fim da luta, Arona extravasou dando um grito estridente no rosto do oponente.

Diante da clara superioridade do amigo, Paulão invadiu o ringue e acabou caindo com Arona montado por cima dele. No fim os dois se abraçaram. “Valeu campeão, você foi guerreiro”, disse a Wanderlei, me revelando na sequência que não tinha a intenção de desrespeitar o oponente na hora do polêmico grito: “Não quis desrespeitá-lo, aquilo foi coisa de fúria de guerreiro”.

Declarações que marcaram a luta

Ricardo Arona: “Ele dizia que eu tinha um Muaythaizinho. Venci ele em pé e no chão… Mas não quis desrespeitá-lo com aquele grito, aquilo foi coisa de fúria de guerreiro”

Bebeo Duarte: “O cara agora é o Arona, batemos o Wanderlei”

Com a derrota de seu principal símbolo, a Chute Boxe voltava ao vestiário em clima de funeral. Depois de assistir seu maior ídolo perder para o maior rival, Shogun teria que subir ao ringue para enfrentar Overeem já pensando numa final com Arona. Percebendo o abatimento do parceiro ao chegar ao vestiário, Wanderlei sabia da importância de seu empurrão. “Piá, vai com tudo que este título é seu”.

Shogun tratoriza Overeem e Arona

A força do ídolo fez a diferença. Depois de nocautear Quinton Jackson e vencer Rogério Minotouro numa histórica batalha, Shogun entrou seguro na semifinal como o único brasileiro dos 4 semifinalistas.

Shogun primeiro passou por Overeem - Foto: Marcelo Alonso

Shogun primeiro passou por Overeem – Foto: Marcelo Alonso

Overeem, que havia prometido estragar a festa brasileira, até começou bem. Com quatorze centímetros de vantagem, o homem que eliminara Vovchanchyn e Belfort chegou a levar o brasileiro para o chão em duas oportunidades, em uma delas tentando encaixar sua temida guilhotina. Shogun aproveitou a tentativa para cair por cima e passar a dominar a luta. Depois de passar a guarda e castigar o holandês com joelhadas, o atleta da Chute Boxe levantou soltando tiros de meta. Na sequência permitiu que o holandês levantasse para lhe derrubar de novo, passar a guarda, montar e bater a até o juiz interromper. Estava definida a tão sonhada final entre Chute Boxe e BTT.

Se Wanderlei respeitou muito Arona, o mesmo não se pode dizer de Maurício Shogun. Além do cinturão, o garoto tinha três motivações extras: 1) se vencesse vingaria Wanderlei e o irmão Ninja, que perdera para Arona no Pride 21; 2) garantiria a dianteira da Chute Boxe no confronto direto com a BTT no Pride (4×2). Em caso de derrota confirmaria Arona como terror da Chute Boxe (seria o 3º vencido pelo carioca) e selaria o empate com a equipe rival (3 vitórias para cada). “A derrota do Wandeco me motivou muito, entrei para nocautear”, contaria alguns minutos depois o novo campeão do GP.

Quando a luta começou Shogun já partiu para cima tentando um chute rodado, Arona contra atacou cinturando Shogun e botando-o para baixo, mas o curitibano surpreendeu e atacou uma omoplata, que deixou o carioca em posição difícil por quase dois minutos. Arona escapou e a luta voltou em pé com shogun acertando um cruzado de direita, seguido de três joelhadas. Arona tonteou, mas conseguiu derrubar o oponente, que logo levantou.

Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei - Foto: Marcelo Alonso

Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei – Foto: Marcelo Alonso

Após rápida troca de golpes foi Shogun que derrubou um já esgotado Arona, passando rapidamente sua guarda e chegando ao cem quilos, de onde acertou cotoveladas na costela e uma joelhada na cabeça. Na sequência, Shogun levantou e tentou um pisão, que passou de raspão, seguido por quatro socos que apagaram o atleta da BTT obrigando o juiz a interromper.

“Minha maior infelicidade foi que logo no primeiro minuto de luta, quando clinchei para dar uma queda no Shogun, cai de cabeça com ele por cima, a partir dali já estava seminocauteado e não via mais nada… em condições normais acho que posso vencê-lo, mas isso é uma coisa mais pessoal, antes quero disputar o cinturão com o Wanderlei”, disse Arona.

Declarações que marcaram a luta

Ricardo Arona: “Estava mais desgastado que o Shogun. Na luta com o Wanderlei machuquei o ligamento do joelho, o pé, afundei a canela mas tomei uma infiltração e voltei pra lutar, coisa de guerreiro”

Cristiano Marcelo: “O Shogun deu omoplata e passou a guarda do tetra campeão do ADCC. A Chute Boxe provou hoje que tem o melhor chão para o Vale-Tudo”

Shogun: “Vinguei o Wandeco, nocauteei o Arona e ainda garanti o 4×2 em cima da BTT. Hoje é o dia mais feliz da minha vida”

Paulão: “O Arona não deveria ter voltado. Se quebrou todo em 15 minutos com o Wanderlei, enquanto o Shogun veio inteirinho de quatro minutos com um frango dágua”.

Rudirmar Fedrigo: “Para nós este Paulão é Paulinho. Ele não tem consistência, é reserva do GP e não tem peito de encarar o Ninja”.

Wanderlei: “Agora que o evento acabou eu posso falar. Se nós dois fôssemos para a final o Shogun ia entregar o título para mim, mas eu queria dar pra ele, se for analisar os lutadores que pegamos ele merecia mais”

O primeiro triângulo

Outro brasileiro que brilhou neste evento foi Fabrício Werdum. Após estrear vencendo Tom Erikson, o gaúcho não deu chance ao parceiro de treinos de Fedor, Roman Zentsov. A luta serviu para apimentar o clima do confronto entre Fedor e Cro Cop, uma vez que Werdum, nessa época, treinava com o croata. Curiosamente Werdum finalizou Zentsov com o mesmo golpe que venceria Fedor cinco anos mais tarde, um armlock no triângulo a 6 minutos do 1º round.

Fedor x Cro Cop

Num evento com tantas lutas boas válidas pelo GP, os promotores do Pride ainda se deram o trabalho de casar o confronto de pesos pesados ais aguardado daquele ano,

Entre o campeão da categoria, Fedor Emelianenko, e Mirko Cro Cop, que vinha vencendo todo mundo.

Depois de se negar a enfrentar o policial croata por duas vezes, alegando ter contundindo a mão, Fedor mostrou mais uma vez ao mundo o porquê era o melhor pesado da história aceitando lutar dois rounds com Cro Cop em pé.

Depois de ter seu nariz quebrado por um golpe do croata logo no início da luta, Fedor partiu para cima, derrubou Mirko e garantiu a vantagem no 1º round com muito ground n’ pound. No 2º, porém, Fedor voltou ainda mais agressivo, aceitando mais a luta em pé e acertando excelentes golpes no croata, que mais uma vez terminou sendo derrubado, passando o resto do round apanhando.

O terceiro round foi uma repetição do 2º e garantiu a Fedor a vitória em decisão unânime. Após a luta, Fedor revelou na coletiva de imprensa que quebrara a mão ainda no primeiro round, mas continuou lutando.

  • "Encarada entre os rivais foi tensa - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Arona venceu o 1º clássico - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Arona venceu o 1º clássico - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Arona venceu o 1º clássico - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Arona venceu o 1º clássico - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Shogun primeiro passou por Overeem - Foto: Marcelo Alonso"
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  • "Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Shogun venceu Arona e vingou Wanderlei - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Werdum venceu aluno de Fedor - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Fedor levou a melhor sobre Cro Cop - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Shogun e Fedor após o evento - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Coletiva de imprensa - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Shogun e Wand após a consagração - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Depois da conquista - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Depois da conquista - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Chute Boxe em festa - Foto: Marcelo Alonso"