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O último capítulo da guerra entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre e o tratado de paz

por: Marcelo Alonso
em 4 de novembro de 2016

Foto: Marcelo Alonsi

Foto: Marcelo Alonso

A vitória do Jiu-Jitsu sobre a Luta-Livre em 1991 não foi o fim da Guerra. Na verdade, foi apenas um capítulo. Cientes de que os representantes do Jiu-Jitsu estavam mais bem preparados em 1991 e mereciam vencer, os representantes da Luta-Livre nunca esqueceram a pressão e as dificuldades que passaram no evento e queriam responder ao Jiu-Jitsu no mesmo estilo. A oportunidade veio em outubro de 1997 no Pentagon Combat, promovido pelo faixa preta de Jiu-Jitsu de Carlos Gracie Jr. Nelson Monteiro, financiado pelo Sheik Tahrnoon Bin Zayed.

Lutadores do calibre de Murilo Bustamante e Oleg Taktarov foram escalados no card, além da explosiva luta principal entre Renzo Gracie e Eugênio Tadeu. Tudo parecia perfeito, mas o promotor esqueceu da histórica rivalidade entre o Jiu-Jitsu e a Luta-Livre e poupou dinheiro no item mais importante num evento de Vale-Tudo no Rio: a segurança. E então esse foi o motivo pelo qual o evento entrou para história como um capítulo negro do Vale-Tudo.

TRAGÉDIA ANUNCIADA

Se você colocar um Gracie para enfrentar o maior líder da Luta-Livre (o homem que esteve em quase todas as lutas entre os dois estilos) num pequeno Tijuca Tênis Clube, é claro que a polícia e centenas de seguranças deveriam estar presentes.

No dia anterior, rumores diziam que a galera da Luta-Livre prometia invadir o evento e se vingar do passado Grajau de 1991. “No dia anterior ainda tentei pegar uns convites com o Robson mas ele só me deu três, aí eu me revoltei. Organizei um exército de 200 psicopatas e invadimos o Tijuca, mostramos pra eles como é difícil lutar sobre pressão”, lembra Hugo Duarte.

Foto: Marcelo Alonsi

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A LUTA QUE NÃO TERMINOU

Considerado favorito depois de derrotar nomes como Oleg Taktarov e Maurice Smith, Renzo começou a luta dando um sufoco em Eugênio. Passou sua guarda por diversas vezes, montou duas vezes e ficou perto de finalizá-lo com um mata-leão, mas a bravura e o sentimento de vingança da Luta-Livre, Eugênio sentiu Renzo começar a ficar cansado e mudar o ritmo da luta. Depois de derrubar Renzo com um chute nas pernas, Eugênio começou a chutar as suas pernas no chão, enquanto Renzo apenas tentava se recuperar sentando no chão. Renzo tentou se levantar novamente, mas Eugenio o colocou pra baixo novamente com um chute nas pernas. Naquela altura, a torcida da Luta-Livre estava louca, sentindo o bom momento, onde dominava completamente a área em volta do ringue. Mas um dos caras da Luta-Livre chutou a cabeça de Renzo pelas cordas e a luta foi interrompida, quando faltava apenas um minuto para o final do round de 10 minutos. Renzo, muito cansado, se levantou e começou a andar pelo ringue quando outro lutador de Luta-Livre o agrediu com um soco e a luz do ginásio foi apagada. Naquele momento uma imensa luta entre membros da Luta-Livre e do Jiu-Jitsu se iniciou, quebrando todas as cadeiras do ginásio. “Eu nunca tinha visto nada como aquilo na minha vida. Parecia uma guerra real”, declarou um perturbado Oleg Taktarov (que nocauteou Sean Alvarez em sua luta).

Foto: Marcelo Alonsi

Foto: Marcelo Alonso

A polícia estava completamente perdida no meio da batalha na escuridão. Fotógrafos e jornalistas se esconderam embaixo do ringue. A luta apenas acabou quando os policiais atiraram por duas vezes. “O cara que atacou o Renzo foi um imbecil. Eu estava tão perto de nocautear Renzo e a Luta-Livre iria finalmente conseguir sua revanche”, reclamou depois um revoltado Eugênio Tadeu.

Hugo acreditava que Robson Gracie era o responsável pelo apagão: “Por que as luzes não foram apagadas no começo? Só foram apagadas quando o Eugênio estava ganhando?” argumentou Hugo. Renzo respondeu: “Meu pai estava dentro do ringue comigo quando as cadeiras começaram a ser jogadas dentro do ringue. Como ele poderia ter desligado a luz?”

Este evento teve ainda mais impacto negative na mídia do que o Heróis do Ringue, em 1959. Todos os jornais noticiaram que a confusão foi criada pela Guerra entre duas artes marciais rivais. Até mesmo a CNN noticiou. A consequência não poderia ter sido pior: o governador da época proibiu eventos de Vale-Tudo no Rio de Janeiro.

FINALMENTE EM PAZ

Com o passar do tempo e as novas gerações de lutadores surgindo, a relação entre Luta-Livre e Jiu-Jitsu começou a melhorar. O primeiro passo aconteceu no Pride 4 (agosto de 1997), quando Hugo Duarte enfrentou Mark Kerr e Carlson Gracie ficou em seu córner. “Hugo veio ao Japão enfrentar um dosn maiores lutadores no mundo. Ele tinha seus treinadores pessoais e eu decide ajudá-lo”, disse Carlson Gracie que foi ao evento para apoiar seus alunos Allan Goes (que empatou com Sakuraba) e Wallid (que perdeu para Akira Shoji).

Hugo perdeu a luta, mas nunca esqueceu a atitude de Carlson: “Carlson me ajudou muito num momento difícil. Eu acho que já é tempo para encerrarmos de vez a rivalidade entre o Jiu-Jitsu e a Luta-Livre”.

Na verdade, depois de 1998 o clima entre Luta-Livre e o Jiu-Jitsu começou a melhorar, mas a guerra apenas terminou quando a nova geração da Luta-Livre começou a surgir e os eventos de Vale-Tudo foram se profissionalizando “Os tempos de Guerra terminaram. Na verdade nós não vivemos este tempo de guerra entre o Jiu-Jitsu e a Luta-Livre como nossos mestres. Então nós não podemos odiar o Jiu-Jitsu como eles fazem”, disse o campeão do Shooto Alexandre Franca Nogueira, explicando a razão da excelente relação da geração dele com os lutadores de Jiu-Jitsu.

  • "Foto: Marcelo Alonso"
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