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O dia em que um vendedor de coco salvou um torneio de vale-tudo

por: Marcelo Alonso
em 3 de março de 2017

À direita, o vendedor de cocos proto para estreia no vale-tudo - Foto: Marcelo Alonso

À direita, o vendedor de cocos proto para estreia no vale-tudo – Foto: Marcelo Alonso

O que você faria se fosse um promotor de um evento de vale-tudo e, a poucas horas do show começar, se desse conta de que apenas três dos oito lutadores do torneio haviam chegado? A seguir você vai saber como Evilázio Feitosa se livrou desta enrascada, realizando com sucesso no dia 20 de novembro de 1999 o desafio Bad Boy de Vale-Tudo, evento que consagrou o “Demônio Nordestino” Assuério Silva.

O Sol começava a se por na praia do futuro, em Fortaleza. Enquanto os trabalhadores terminavam a montagem do ringue, colocando uma moto Honda 125cc numa passarela acima e montando centenas de cadeiras na areia, o promotor Evilázio Feitosa me chamava para conversar com um certo ar de preocupação: “Alonso, tenho uma má notícia para te dar. Te trouxe aqui para cobrir um torneio de oito lutadores, mas infelizmente, a 3 horas do evento começar, só temos três lutadores”. Diante da situação absolutamente desesperadora do promotor, que tinha a obrigação de justificar aquele mico para o patrocinador que bancara toda aquela estrutura, só consegui formular uma pergunta: “E o que você vai falar para o público que daqui a pouco começa a chegar e à Bad Boy que patrocinou o evento?”.

Foi quando ele respondeu com a maior firmeza: “Mas o evento vai ocorrer, eu nem cogitei cancelar, só não será como eu havia planejado. Em vez de oito, vou ter que fazer um torneio de quatro”. Diante de toda aquela certeza e tranquilidade, fiz a fatídica pergunta: “Mas como você vai arrumar um quarto lutador em menos de três horas?”. Neste momento vinha passando um negão com um carrinho de mão cheio de cocos. Feitosa não titubeou e emendou para o vendedor de coco: “Ô nego do couro duro, você quer ganhar aquela moto que está ali em cima?”. “Quantos eu tenho que derrubar para ganhar ela?”, respondeu o vendedor, cheio de atitude. Quando Evilázio disse que eram só dois, Luís Tigre (1,84m/118kg) aceitou na hora, sem saber que acabara de salvar o evento.

O DEMÔNIO NORDESTINO

Na final, Assuério atropelou Serão - - Foto: Marcelo Alonso

Na final, Assuério atropelou Serão – – Foto: Marcelo Alonso

Em poucas horas o público chegou e lotou a área montada na praia do Futuro. O “Demônio Nordestino” Assuério Silva (1,81m/101kg), que já havia vencido vários torneios na região de Natal, abriu a noite atropelando o aluno de Luiz Alvez, Leopoldo Serão (1,82/93kg). Depois de ser derrubado, o representante da luta-livre tentou uma chave de pé e acabou inconsciente com os socos de Assuério.

A segunda luta do torneio foi bem mais demorada. Mesmo sendo totalmente leigo, o vendedor de coco Edson Tigre usou sua vantagem de peso para dar trabalho a Luís Alberto, o “Leão da Paraíba” (1,80m/92kg). Faixa roxa de jiu-jitsu, Luís dominou as ações, mas só conseguiu finalizar Edson após 10 minutos de luta. “Quase quebrei minha mão de tanto dar nele. Ô nego do couro duro. Isso treinado vai ser ruim de aturar”, reconheceu Luís, que saiu da luta esgotado e acabou sendo presa fácil para Assuério na grande final. Em apenas 6 minutos o “Demônio Nordestino” vencia a final por desistência após uma sequência de chutes e socos.

“ROMPEU MINHA JANGULAR”

Assuério venceu o torneio e levou a moto  - Foto: Marcelo Alonso

Assuério venceu o torneio e levou a moto – Foto: Marcelo Alonso

No dia seguinte ao evento, o vencedor do torneio, cheio de contas para pagar, aproveitou a chegada do promotor do evento ao hotel para chorar um acréscimo na bolsa. “Poxa, Evilázio, salvei seu evento… Imagina o mico que não seria, depois de toda publicidade que você fez na região, se não tivesse torneio”, argumentou o campeão, deixando claro que não pensava em vender a moto para pagar as dividas. “Está complicado, campeão. Essa moto foi bem cara. Qual evento aqui do Nordeste dá uma moto zerinha como esta?”, retrucou o promotor.

Percebendo que não arrancaria nada de Evilázio, Assuério resolveu apelar, e mostrando seu dente canino, que perfurava o lábio inferior como um piercing, tentou a última cartada. “Dá uma força aí. Ainda vou ter que despesa com hospital. Olha aqui, o dente perfurou minha ‘jangular’”, disse o campeão sem imaginar que a veia jugular estava localizada alguns centímetros abaixo do lábio, mais especificamente em seu pescoço.

Algumas semanas depois após cobrir este torneio, estive em Curitiba e comentei com Rudimar sobre o talentoso “Demônio Nordestino” . Carente de um peso pesado na Chute Boxe, Rudimar o convidou para lutar no Mecas 2. A atuação de Assuério, finalizando rapidamente Rodrigo da Silva, lhe valeu um convite para treinar na maior equipe de MMA da época, estreando no Pride no ano seguinte.

Outro que teve um belo impulso na carreira após este evento na praia do Futuro foi o vendedor de cocos Edson Tigre, que passaria a ser um dos pesos pesados mais requisitados em eventos no Nordeste.

  • "Vista para a praia do Futuro - Foto: Marcelo Alonso"
  • "À direita, o vendedor de cocos proto para estreia no vale-tudo - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Leão da Paraíba precisou de 10 minutos para finalizar - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Leão da Paraíba precisou de 10 minutos para finalizar - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Na final, Assuério atropelou Serão - - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Assuerio e Serão -- Foto: Marcelo Alonso"
  • "Na final, Assuério atropelou Serão - - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Assuério venceu o torneio e levou a moto - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Assuério venceu o torneio e levou a moto - Foto: Marcelo Alonso"