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O dia em que o “Romário do Vale-Tudo” consagrou a Luta-Livre no Caribe

por: Marcelo Alonso
em 17 de abril de 2017

Hugo, Bigú e Cacareco comemorando as 5 vitórias da Luta Livre - Foto: Marcelo Alonso

Hugo, Bigú e Cacareco comemorando as 5 vitórias da Luta Livre – Foto: Marcelo Alonso

Empurrado por torcida caribenha ao som de “Romário” e Ary Barroso, Alexandre Cacareco finaliza dois, vence o bem mais pesado Heath Herring e fatura cinturão dos pesados do WVC. Esta noite histórica da Luta-Livre, terminou ainda com as vitórias de Hugo Duarte e Antônio Carlos Bigú, e você relembra agora.

FUTEBOL, MÚSICA E VALE-TUDO

Teoricamente os três não têm absolutamente nenhuma relação entre si. Pelo menos era o que eu imaginava até aquele dia 1º de Julho de 1999, quando fui cobrir em Aruba a oitava edição do World Vale-Tudo Championship (WVC) de Frederico Lapenda.

Com apenas 94kg e uma derrota no Vale-Tudo para o wrestler americano Tim Catalfo (IVC4), Alexandre Cacareco chegava ao Caribe como azarão. Afinal, para conquistar o cinturão dos pesados do evento, o carioca teria que vencer duas lutas e, provavelmente, enfrentar na final o favorito Heath Herring, um wrestler americano de 1,93m e 120kg, que já tinha 8 lutas e 6 vitórias.

Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring - Foto: Marcelo Alonso

Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring – Foto: Marcelo Alonso

Quando subiu pela primeira vez ao octógono montado na areia da praia a poucos metros do cristalino mar caribenho, Cacareco, que imaginava enfrentar uma barulhenta torcida de turistas americanos, teve sua primeira surpresa. Assim que seu oponente, o grego Astraroslakis, (1,78m/86kg) entrou na jaula, alguém puxou o couro que marcaria aquela noite. “Romário! Romário! Romário!”. Era o sucesso do futebol brasileiro, que naquele momento ainda era o maior do mundo, mostrando sua força.

Cacareco retribuiu o carinho dos locais derrubando, pegando as costas e aplicando um rápido mata-leão no grego, ganhando de vez a simpatia da torcida que a esta altura gritava mais forte o nome do artilheiro brasileiro. Na semifinal nosso “Romário” dos ringues repetiu a receita contra o holandês Rodney Faverus (1,74m/85kg. Derrubou, montou e fuzilou ganhando de vez a torcida.

Enquanto isso, do outro lado da chave, Herring, apoiado pela torcida americana, tratorizava seus dois oponentes. A primeira vítima foi o grandalhão holandês Erwin Van Steen (1,90m/107kg), que pediu para parar após 4min33 de ground n´pound. Na semifinal, Herring usou a mesma receita para vencer o russo Kaukaz (1,78m/90kg), que acabou perdendo 2 dentes.

ARY BARROSO CONTRA O WRESTLING

Na grande final, a força da cultura brasileira mais uma vez fez a diferença. Quando Cacareco subiu ao octógono, tendo a desvantagem de quase 20cm de envergadura e 25kg a menos de peso, os caribenhos de colonização holandesa abafaram os gritos de USA, da torcida de Herring, cantarolando a mundialmente conhecida música de Ary Barroso “Brasil, meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro Brasil pra mim …”. Os turistas americanos ainda tentaram reagir a canção de Ary Barroso com o clássico “USA! USA!” , mas assim que o brasileiro conseguiu a primeira queda e seus socos começaram a entrar pela guarda do americano, os locais abafaram: “Romário! Romário!”. Com tamanha manifestação de brasilidade fora de casa, Cacareco se agigantou e dominou o combate, derrubando Herring por mais três vezes e, para delírio dos locais, sendo declarado campeão do torneio após 30 minutos de luta. “Foi muito emocionante ter o apoio da torcida aqui, mas não vejo a hora de chegar logo em casa e comprar um ar condicionado para a minha filha e um computador para a minha esposa”, disse o novo ídolo de Aruba, revelando que odiava viajar.

 DO OCTÓGONO PARA A AREIA

Inicialmente programado para fazer a super luta do evento contra o judoca e ex-lutador do UFC Remco Parduel, Hugo Duarte (1,84m /105kg) se surpreendeu ao chegar na ilha e receber a notícia que o holandês preferira entrar no torneio a enfrentá-lo. A solução encontrada por Lapenda foi colocar em seu lugar o casca-grossa russo Mikhail Avetesyan (1,80m/98kg) que vinha de um empate com Igor Vovchanchyn no AFC.

Hugo sofreu com dedas no olho - Foto: Marcelo Alonso

Hugo sofreu com dedas no olho – Foto: Marcelo Alonso

Assim que a luta começou o general da Luta-Livre derrubou o russo e em segundos o encurralou na grade, mas quando ia se ajeitar para começar a socá-lo, foi atacado nos olhos. O juiz Leonardo Castello, faixa preta de Jiu-Jitsu trazido por Lapenda para ser o juiz das lutas, advertiu o russo, o que de nada adiantou. Quando a luta foi reiniciada Mikhail insistiu e chegou a tirar sangue do olho do brasileiro. Diante da insistência, Castello parou o combate e desclassificou o russo, que revoltado, chutou as pernas de Hugo enquanto este era atendido pelos médicos.

Estava na cara que aquilo não poderia terminar, quando Hugo ia subir ao octógono para comemorar a vitória de Cacareco na final do torneio, esbarrou novamente com o russo e o pau cantou fora do octógono, em plena areia caribenha. A briga foi apartada e Hugo tentou marcar na praia ou numa sala fechada, mas seu empresário La Penda achou melhor esquecer. “A continuação deste Brasil x Rússia será em agosto entre Vochanchyn e o campeão Hugo, mas dentro do octógono”, garantiu Lapenda, mas esta luta acabou nunca ocorrendo.

O VISIONÁRIO LAPENDA

Durante muito tempo, por conta de problemas que teve com Carlson Gracie e Marco Ruas, Frederico Lapenda passou a ser mal visto no mundo das artes marciais no Brasil. Passado o tempo, porém, é importante que se reconheça a importância deste pernambucano, que hoje trabalha como produtor de filmes em Hollywood.

Foi Lapenda quem levou Carlson e Vitor Belfort para os Estados Unidos e mostrou que a história Gracie ia muito além dos filhos de Hélio. Foi ele quem colocou Marco Ruas no UFC, possibilitando o início da era do cross training que revolucionou o Vale-Tudo.

Criador do WVC, foi Lapenda quem colocou Mark Kerr e Pedro Rizzo no mundo do Vale-Tudo. Foi ele quem levou Traven e Castello para lutarem na Rússia e Hugo e Cacareco para lutarem em Aruba.

Em 1998 ele tentou reunir Marco Ruas e Carlson numa equipe única e imbatível para dominar o mundo do MMA, mas infelizmente, devido a rivalidade que imperava na época, não conseguiu. Hoje quem conhece a história do esporte, sabe da importância de Frederico Lapenda. Nunca é tarde para consertar as injustiças. Fica aqui a contribuição e o reconhecimento da PVT Mag.

  • "A paradisíaca Aruba - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Galera em Aruba - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Hugo Duarte, Frederico Lapenda, Castello Branco e Rob Cayman - Foto: Marcelo Alonso"
  • "A luta entre Hugo e Avetisyan começou no octógono e terminou na areia da praia - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Hugo sofreu com dedas no olho - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Hugo sofreu com dedas no olho - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Hugo sofreu com dedas no olho - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Bigú teve problemas para derrubar o striker holandês Willy Peters - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Após segurar nas grades diversas vezes, Peters foi desclassificado e mostrou a bunda para a torcida - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Para chegar a final Cacareco finalizou rápido o grego Astrarvoslakis e o holandês Rodney Faverus"
  • "Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Cacareco não teve problemas para derrubar o bem mais pesado Herring - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Hugo, Bigú e Cacareco comemorando as 5 vitórias da Luta Livre - Foto: Marcelo Alonso"
  • "Cacareco com Heath Herring logo após a batalha de 30 minutos - Foto: Marcelo Alonso"