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Eduardo Alonso critica possível mudança na pesagem e pede punição para quem não bater o peso

por: Leonardo Fabri | @Fabri89
em 7 de junho de 2018

Pesagem de manhã ou de tarde? – Foto: Divulgação/UFC

Na última terça-feira, Dana White revelou que o UFC cogita extinguir a pesagem matinal, como é feito desde junho de 2016, e voltar ao sistema antigo, quando os lutadores pesavam somente na pesagem cerimonial, geralmente realizada no final da tarde: “Sempre tentam tirar vantagem. No início era ótimo, todo mundo batendo o peso. Agora, deixam para tirar o peso em cima da hora pensando em recuperar mais peso, o que está gerando muita dor de cabeça. Vamos tentar voltar com a pesagem às 16h, junto com as encaradas, ali que vai valer”, justificou o presidente do UFC. Imediatamente após a declaração, lutadores da organização foram às redes sociais implorando para que o cartola não levasse a ideia para frente. Empresário de Demian Maia e Maurício Shogun, Eduardo Alonso também mostrou insatisfação com a possibilidade.

“Se fizerem uma pesquisa com atletas e treinadores, dificilmente encontrarão uma opinião favorável ao antigo sistema”, afirmou o manager ao PVT. “A pesagem mais cedo dá um tempo hábil para que os atletas façam a reidratação via oral de maneira adequada, visto que a intravenosa, que era mais rápida, foi proibida. Existe uma série de estudos que mostra que um atleta desidratado está muito mais sujeito a lesões neurológicas do que um atleta bem hidratado. Num esporte de combate, onde naturalmente os atletas recebem golpes no crânio, você diminuir a possibilidade de reidratação do atleta, você assume um risco desnecessário. Por conta de uma minoria que não cumpre o que está estabelecido em contrato, a maioria pode ser prejudicada. Voltar com a pesagem da tarde é trazer e volta uma pior condição para a recuperação do atleta, é um retrocesso”.

Alonso revelou ter conversado com o vice-presidente de Saúde e Performance do UFC, Jeff Novitsky, que cogitou a hipótese de flexibilizar o horário da pesagem.

“Cogitando a hipótese, eu acho viável e justo que os atletas tenham um horário mais amplo, que se estenda da manhã até a tarde. Pesa pela manhã quem se programou e está no peso, e pesa na hora da pesagem cerimonial quem preferir”.

Problema vai além do horário

“O problema não se resume apenas às últimas horas. A perda de peso é produto de todo um contexto feito com antecedência, às vezes com mais de dois meses, para chegar num dia e horário específico para bater o peso. E o horário para se pesar é igual para todo mundo. O atleta tem a responsabilidade de bater o peso, esse é o primeiro e mais importante compromisso antes de subir no cage, e a equipe tem a responsabilidade de ajudar e fazer o planejamento correto para que isso ocorra. O problema de atleta não bater o peso não é o horário. 09h, 10h, 16h… é por desorganização ou malandragem, e esse tipo de coisa se resolve com punições impactantes. Ver como uma questão única e exclusiva da mudança de horário, é fazer uma análise superficial, é arrumar desculpa para esses atletas que estão agindo de forma desorganizada e não profissional, ou com falta de ética, buscando vantagens esportivas”, explica Alonso.

Só no ano de 2018, sete dos oito atletas que não bateram o peso venceram suas lutas e apenas um foi derrotado. O número alarmante coloca em xeque o atual sistema de punição adotado pelas Comissões Atléticas, que é ceder de 20% a 30% da bolsa para o adversário. Para Eduardo Alonso, as punições brandas não impedem os atletas má intencionados de tirarem vantagem.

“Muitos atletas começaram a simplesmente a ver vantagem em não bater o peso, por se desgastar menos, por se recuperar com mais facilidade e por isso entrar mais pesado e inteiro na luta do que aquele atleta que bateu peso. E com isso aumentar a chance de vencer e progredir na carreira, isso perante a uma penalidade apenas financeira, e até mesmo duvidosa. Numa ética duvidosa, para esses atletas, é um bom negócio não passar por todo o processo muitas vezes severos e ter novas e melhores oportunidades na carreira em troca de apenas 20% da bolsa. Você dificilmente vê isso acontecendo com lutadores que tem uma bolsa substancial, como o McGregor, por exemplo. Você dificilmente vê um cara desse não bater o peso. Além do profissionalismo, ele não vai querer abrir mão de um grande valor. Não bater o peso não pé acidente, é responsabilidade do atleta e da equipe. Se ele não chegar no peso no horário estipulado, ou ele não fez a programação correta, ou está tentando lutar numa categoria que não tem condições, ou está tentando se beneficiar da malandragem dentro do custo-benefício, ou realmente teve um imprevisto, algum problema pessoal, o que não deve ser recorrente”.

Punições

“Para começar a resolver esse problema de verdade, tem que haver medidas e punições mais sérias, que não compensem o custo-benefício de não bater o peso para tirar vantagem na luta. As punições devem ser mais severas e também esportivas. Exemplo: estourou até 10% do peso, ele deixa de receber o bônus de vitória, deixa de estar elegível ao bônus de performance – e isso já acontece, e entra na luta com menos 1 ponto. Se vencer a luta, não pode subir no ranking da categoria até que bata o peso novamente. Se ficar 15% acima do peso da categoria, aumenta a multa… 50% de multa, entra com 2 pontos a menos. Se tiver um critério esportivo de competição, pode ter certeza que os atletas que não batem começam a bater ou mudam de categoria. O que não faz sentido é privilegiar quem está infringindo a regra e eventualmente tendo alguma vantagem em detrimento de quem está fazendo corretamente”.

Outro ponto destacado por Eduardo Alonso é a suposta conivência do meio da luta com os recentes casos.

“Um se pendura na toalha, outro coloca o pé fora da balança, e depois da vitória ninguém mais fala do assunto, e isso inclui imprensa, atletas, treinadores, o publico. Existe uma cultura de aceitação, falta repercussão e represália para isso”, cobra o empresário. “Foram abrindo precedentes. Antigamente, existia uma reprovação publica por parte do meio quando o atleta não batia o peso, existia uma revolta, e aos poucos foi caindo no lugar comum, as estatísticas foram mostrando que os atletas que não batiam o peso venciam e, de forma velada, a prática foi sendo encorajada”.

Pesagem no dia nem pensar

“Infelizmente, pela natureza do ser humano, isso geraria um risco e um problema ainda maior, porque com certeza muita gente tentaria ainda assim desidratar em cima da hora para tirar alguma vantagem, e chegaria irresponsavelmente numa condição em que o médico tivesse que vetar a luta, ou então o atleta ter um sério problema de saúde, como já aconteceu, o que gerou esse sistema de pesagem um dia antes. Sem falar que deixaria o promotor do evento numa condição complicadíssima. Como ele vai apostar o dinheiro dele num evento em que na hora de entrar no ar ele corre o risco de perder as lutas por conta de problemas com o peso?”, questionou Alonso.