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Baú do Alonso: Relembre um bate-papo especial com o aniversariante do dia Marco Ruas

por: Marcelo Alonso
em 23 de janeiro de 2017

Na última segunda-feira, dia 23 de janeiro de 2017, Marco Ruas, um dos personagens mais importantes da história do MMA, completou 56 anos de idade. Em homenagem à data especial, o PVT relembra uma longa entrevista da lenda feita para a PVT Mag 9, em 2010, numa visita dos editores do Gleidson Venga e Marcelo Alonso em sua academia na Califórnia, EUA.

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O HOMEM QUE TRANSFORMOU O VALE-TUDO NUM MIX DE ARTES MARCIAIS (MMA)

Numa época em que grapplers como Royce e Rickson Gracie, Dan Severn, Ken Shamrock e Oleg Taktarov assombravam o mundo mostrando que a luta agarrada era a mais eficiente para os combates de vale-tudo, Marco Ruas aparecia para o cenário mundial no UFC 7 com uma filosofia inovadora, mas bem simples: “Se você chuta e soca, eu agarro; se você agarra, eu chuto e soco”. E foi assim que ele se consagrou, finalizando strikers e nocauteando grapplers, em uma revolução que foi chamada pelos americanos de cross-training. A partir dali, os lutadores perceberam que era necessário treinar mais de uma modalidade, chegando hoje ao estágio se super atletas, especialistas em diversos estilos. Porém, a história de Marco Ruas no mundo das lutas não começou naquele UFC 7, em 1995. Na verdade, Marco Ruas começou sua trajetória em 1997, aos 16 anos, treinou diversas modalidades, participou de momentos históricos do esporte, e um pouco desta história você confere no bate-papo abaixo:

Desde que você estreou no MMA até os dias de hoje, como você vê as mudanças ocorridas no esporte?

 Foi uma coisa impressionante. Quando eu cheguei aqui não tinha nada. Nós não podemos deixar de falar que o mérito todo é do Rorion e dos Gracie, mas principalmente do Rorion. Isso é um mérito deles, pois foram eles que construíram isso. Se hoje em dia muitos lutadores estão ganhando dinheiro, isso é graças a família Gracie. Eu não posso deixar de falar isso. O Rorion foi o cara que teve a idéia de fazer o UFC. Aquilo com grade e esses desafios entre as artes marciais foi idéia dele. De lá pra cá o negócio cresceu de uma maneira absurda.

smithComo um dos protagonistas da história no Brasil, onde existia toda aquela rivalidade, e depois de passados tantos anos, como é que você vê aquelas histórias todas? Você viveu uma história mais bizarra que a outra. Como você vê tudo isso?

É até engraçado falar disso hoje em dia. Os caras que me tinham como inimigo, hoje em dia são meus amigos. Eles falam comigo como se nada tivesse acontecido e esqueceram-se de tudo. Vários deles me viam como um inimigo. Eu não entendia o motivo, porque eu viva com as pessoas do boxe e de outras artes marciais e via aquilo como um esporte. Como acontece no jiu-jitsu e no judô, aquilo era uma competição. Apesar disso, quando eu fui lutar no vale tudo como representante dos Gracie, aquilo mudou toda história.

Você virou o inimigo?

Virei o inimigo, mas por um lado foi até bom. Ao decorrer deste tempo, antes de eu entrar no UFC, o Federico Lapenda queria que eu representasse o jiu-jitsu. Houve essa história, mas eu pensei que estava havendo algo esquisito.

Como é essa história? O Lapenda uma vez me contou que vislumbrou lá atrás essa idéia de que todo mundo pretendia fazer um time. A idéia dele era o Marco Ruas se juntar ao Carlson e fazer uma equipe de brasileiros para varrer tudo. Era isso ou a idéia era fazer dois times para se enfrentarem?

Não, era para fazer um time. Seriam os representantes do Carlson Gracie, já que o jiu-jitsu estava com muito nome. No começo, o grande nome era o Royce. O Rorion teve a idéia e o Royce construiu o nome, só que eles venderam, então tinha que continuar. Eles abriram as portas para outros brasileiros e eu fui o primeiro a ser chamado. Era uma grande importância. O Frederico falou pra mim “Marco, agora é a hora de você representar o Carlson que vem de outra linha. Ele é Gracie e os Gracie têm importância e nome. Vai ser bom pra você e você vai entrar forte. As pessoas vão te respeitar e temer”. Eu fiquei pensando nisso e achei que não seria justo, já que havia treinado várias artes marciais e estaria representando somente o jiu-jitsu. As escolas que vinham era contra a minha. Isso deu uma polêmica grande. Ele me botou numa ligação a três com o Carlson e ele concordando. Ele mostrava o Wallid discutindo com o Carlson e dizendo que se ele fizesse aquilo, que todos o abandonariam. O Carlson perguntava para ele o que eu havia feito pra ele e dizia que ele era do meu tamanho. Ele fazia umas brincadeiras dizendo pra Wallid “Vai lá pegar o cara. Ta com raiva do cara, então vai bater nele”. No final das contas eu não concordei com isso.  Eu disse para o Frederico que não precisava daquilo. Parecia que a idéia de entrar naquilo era minha, mas não tinha nada haver. A idéia era dele e eu não estava forçando nada. Era melhor até pros caras.

Era aquela idéia que ele tinha de trazer o oponente mais duro deles para o seu lado.

É lógico. Se eu fizesse isso, o que iria acontecer comigo? Eu seria mais um no meio deles todos e ficaria encostado. Iam me colocar de lado e esquecer. Pensando em me deixar ficar velho.

teamFoi aí que surgiu a idéia do Ruas Vale Tudo …

Eu falei para o Frederico que aquilo não seria justo. Que eu era de outra modalidade e que eu preferia ingressar em outras modalidades, inclusive a luta – livre que eu também pratiquei. Não seria justo, portanto, que eu representasse o jiu-jitsu. Não ia ser algo legal da minha parte. Eu queria representar o meu nome e se eu perdesse que a culpa fosse minha. Como era uma modalidade contra a outra, naquele tempo tinha um monte de pessoas dizendo que o Tae Kwon Do não servia para nada, que o karatê era horrível e coisas do gênero. Isso porque o Royce ia lá e finalizava os caras facilmente. Por isso eu decidi representar minha modalidade e meu nome no vale tudo que é o esporte brasileiro e nasceu no Brasil. Eu queria representar o meu nome. Aí falaram que estava bem e seria Ruas Vale Tudo e eu concordei e disse que estava ótimo. Chegaram a dizer para eu colocar “Ruas; The King of Street”, mas eu disse que não. Foi tudo idéia dele e quando disse que seria Ruas Vale Tudo, eu enfim concordei. Seu eu perdesse a culpa seria minha e não do esporte. Não ficaria aquela pressão encima do esporte. Se eu perdesse as pessoas poderiam dizer que era minha culpa. Tanto que quando eu ganhei de um cara no UFC 7 na luta em pé, ele tinha uma academia para treinar no Colorado com caras do Tae Kwon Do e karatê, dentre outros. Os caras não entenderam nada, porque eu levantei a luta em pé. Eu mostrei que podia se vencer em pé, com chutes e socos. Os caras estavam lá no chão. A luta em pé estava lá embaixo. O chão que estava em evidência, só havia jiu-jitsu. Os caras botavam pra baixo, finalizavam e acabou. Eu não concordava com isso, tanto que quando lutei com o Pinduka em 83, os caras vieram mais de vinte na pesagem e entraram lá com aquela marra toda. Uns amigos do Hélio Gracie chegaram pra mi e disse “Será que ele acha que vai acertar algum soco?”. Ele dava risada e dizia que os caras iam me botar pra baixo. Eu disse par ele que veríamos. Eles não acreditavam que um lutador de jiu-jitsu pudesse levar um soco.

Falaram pra mim uma vez o seguinte, que você tinha tanto respeito pelo Pinduka naquele desafio de 1983 que não entrou soltando os golpes.

Eu não entrei. Existem coisas que as pessoas esquecem, mas que está guardado em mim. Eu tinha vários amigos me ajudando a treinar, mas na época ninguém na hora botava na reta. Todo mundo, na verdade, tinha cagaço da família Gracie. Eles tinham medo e ninguém tinha a coragem de dizer que não gostava na frente, mas falava por trás. Eu vi muito isso. Na frente ninguém botava na reta. As pessoas que me ajudavam a treinar botavam uma incógnita. Eles pensavam que como seria o Pinduka, não ia dar. Ninguém acreditava em mim também não.

Como é isso na cabeça de um atleta?

Ninguém acreditou em mim e ficavam dizendo que o Pinduka era muito forte e muito pesado para mim. Diziam que ele era um cara mais experiente brigador de rua. Eu não tive treinador e nem nada. Os Gracie agiam assim, com aquela pressão psicológica. Eles intimidavam os outros assim, já que tinha uma galera. Eles peitavam todo mundo e se achavam valentes. Os valentões que se achavam, eram na verdade tudo uns frouxos. Eu como garoto achava que não, já que eles eram meus ídolos. No final eu fui ver que eram todos frouxos. Eu como garoto viam eles e os achava um máximo. O cara me empurrava e eu dizia pra não empurrar e eles ficavam sem saber o que dizer. Esses eram os caras que eu tinha como mestre. Eles me pediam ajuda. O cara que eu achava que era um fodão, estava me pedindo ajuda, pois estava com medo do falecido Marcelo Behring. Eu não conseguia entender aquilo e me via como um iludido. Essa moral toda que eles tinham, eles tinha adquirido através da pressão que exerciam sobre os adversários.

Você foi um dos primeiros a questionar isso, não é?

Eu fui um dos primeiros a questionar isso e brigar para que isso mudasse.

Juntou isso com aquela pressão do Eugênio que foi lá e brigou com o Royler dentro da Academia Gracie. De certa maneira se criou um respeito?

Criou-se, muito grande. Eu só não concordei em certos pontos. Eu tinha minha maneira de pensar quanto ao esporte, na porrada. Naquele tempo o vale tudo era visto como um esporte marginalizado. Hoje em dia o cara é tido como um superstar. Naquele tempo o lutador era visto de uma forma marginal. Quando se falava que era do vale tudo já te olhavam torto. Muitos diziam ser de luta olímpica para se mostrarem melhores.

Isso foi um dos diferencias teus. O Hugo e o Eugênio, liderem maiores da luta – livre, já tinham uma visão de responder na mesma moeda, o que acabou sendo importante também para que rolassem desafios e o esporte se desenvolvesse …

Eles queriam fazer na mesma linha que os Gracie faziam. Meu negócio era dentro do ringue. Tanto que eu não fui à invasão nenhuma. Os caras que queriam me buscar. Uma vez me buscaram naquele campeonato de jiu-jitsu.  Os caras me chamaram, mas eu recusei. O Oswaldo, que tinha arrumado o problema, chegou até a dizer que eu não estava nessa.

Foi por isso que você não participou do desafio de 91 no Grajaú ?

A idéia dos caras era que este evento fosse uma guerra, mas o meu objetivo era a competição.

ruas 1Como os seus parceiros da luta – livre encararam quando você disse que estava fora dessa?

Eles acharam que eu não queria me envolver. Depois eu provei que não era bem assim. O Hugo estava no campeonato do meu lado e eles fizeram uma sala fechada com o Zé Moraes. Ele sentou-se à mesa e começou a me dizer como seria o torneio. Eu disse para ele e o Hugo estava do meu lado, que eu lutaria contra qualquer um e que estava pronto. Podia ser ou Amaury ou qualquer outro. Eu falei isso de forma natural, era algo que eu queria e que me dava adrenalina ao falar. Eu estava novo e queria brigar, independente de quem fosse. Hoje em dia eu não falo mais isso, pois não tenho condições. Na minha época eu estava pronto para lutar contra qualquer um. Ele disse que tinha uma proposta para mim e perguntou se eu lutaria com o Rickson Gracie. Eu respondi que contra ele eu lutaria de graça. Ele quis me intimidar colocando grandes adversários como ele. Ele falava o nome de forma enfática como se quisesse me assustar. Eu respondi que lutava de graça e que ele podia marcar a luta. Depois disso ele ficou sem graça. Eu em seguida falei vamos para ligar para ele e combinar isso.

Isso foi na Copa Nastra, lá no Forte da Urca ?

Isso. Nós fomos para uma sala e rolou a reunião. Em ataque de academia eu não concordava com isso. Eu achei que o que o Rickson fez um negócio sujo. Essa coisa de levar uma galera e pressionar o Hugo. O que o Hugo fez também ao contrário eu achei que estava por fora.

Você se refere ao episódio do Boqueirão, que levou aquela briga no Pepê entre  Hugo e Rickson ?

Isso, foi antes do Pepê. Essa história eu fiquei chateado um tempo com o Rickson. Ele conta outra versão, mas não tem essa. Estava o Rodrigo Local, dentre outras pessoas que estavam lá, que viram. Teve um cara que até gravou, mas hoje ele mora nos Estados Unidos. Isso não aconteceu como o Rickson disse. Ele conta outra história, tanto que eu falei uma vez em uma entrevista que eu dei ao Sportv que o Rickson não estaria. Não que eu tenha nada pessoal contra ele, mas eu fico chateado quando uma pessoa fala algo que não aconteceu.

O que te chateia na versão dele ?

O Carlinhos Brunocilla ligou para minha casa e perguntou se eu estava treinando. Eu disse que sempre estava treinando e ele que o Rickson iria no Boqueirão me desafiar. Jogou aquele veneno. Disse que seu eu fosse lá, que ele me desafiaria. Ele fez essa intriga e eu fui pra lá. Eu não estava sabendo de nada, mas fui pra lá.

A minha leitura é que depois que você fez aquele lutão e empatou com o Pinduka, o pessoal da Luta-Livre e Muay Thai começou a espalhar que você venceria o Rickson, se houvesse uma luta. A gota d`água foi quando o Flávio Molina fez aquele desafio na Rede Manchete dizendo que tinham alguns lutadores em condições de vencer o Rickson, que era o No1 da familia Gracie na época. E como o ele estava indo para os EUA naquele mês, o Hélio Gracie quis que ele fosse ao CT da Luta-Livre no Boqueirão para fazer este tira-teima antes da viagem.

O Rickson chegou na academia e disse que tinha ido lá porque o Flávio Molina havia dito que ali tinha um monte de gente que batia nele. Ele entrou lá com o Hélio Gracie, Marcelo Behring e Rílion. O Hélio me chamou e me perguntou como eu estava. Eu disse que estava tudo bem. Ele queria saber o que aconteceu, pois o Flávio Molina tinha ido à Rede Manchete e dito que o Rickson não era o melhor do mundo e Ele queria saber quem tinha falado que existia um monte de gente na academia que batia nele. Tudo surgiu porque o Flávio Molina foi à Rede Manchete sem falar com ninguém e botou lenha na fogueira. Botou todo mundo no fogo. Disse que se o Rickson batia em todo mundo, então ele teria que lutar pra provar. Falou que tinha um monte de gente na academia que batia nele e por isso o Rickson foi lá. O Rickson falou que queria saber quem batia nele e que estava pronto para lutar contra qualquer um. Ele disse que já havia lutado e provado que era o melhor do mundo. Ele disse que havia lutado contra o Zulu que era o melhor do mundo.

IMG_3034Foi nesse momento que o João Ricardo (Budokan) esquentou o clima da reunião dizendo que a luta dele com o Zulú tinha sido marmelada …

Exatamente. João Ricardo disse pra ele pra não levar a mal, mas que essa luta tinha sido marmelada. Aí o Rickson começou a falar palavrão. Depois disso, nós dissemos que ninguém estava contestando que eles eram os melhores lutadores de jiu-jitsu, mas que vale tudo era outra luta. Ele disse que o jiu-jitsu ganhava de qualquer luta. O Carlinhos me catou nesse momento e disse para eu falar alguma coisa. Eu disse tinha ouvido falar que ele viria naquele dia para me desafiar e que eu estava pronto para lutar. O que eu falei foi só isso. Eu vim aqui hoje porque tinham me dito que ele viria lá para me desafiar.

O que te chateia tanto na versão do Rickson ?

Na verdade ele disse que não havia falado nada disso e que eu era um bom lutador. Depois falou que esse assunto era entre ele e o pessoal da luta – livre me excluindo do negócio. Falou isso como se eu não fosse da luta – livre e que queria saber com qual deles ele iria lutar. O negócio voltou para o Carlinhos e ele ficou sem saber o que falar e apontou o Denílson dizendo que ele lutaria. O Rickson disse que estava tudo bem, mas que não tinha muito tempo, pois viajaria em uma semana e em seguida disse para marcar a luta. O que aconteceu foi isso e ele diz que foi lá e me desafiou e que eu tinha pedido um tempo. Eu acho isso um absurdo, pois não houve nada disso. Ele fala que me desafiou e que eu disse que precisava de três meses para treinar. Isso nunca aconteceu !

Também houve um momento que o Eugênio, mesmo sendo o menor da Luta-Livre, pediu a palavra e se colocou a disposição, confere ?

O Eugênio é um cara valente e que não tem papas na língua. Ele perguntou qual era o peso do Rílion e disse que lutaria com ele. Falou para fecharem a luta dele com o Rílion. Ele falou isso no meio da galera. Estava de short com aquele jeito dele e disse que podiam marcar a luta entre ele e o Rílion. Tanto que depois aconteceu um negócio onde o Marcelo Behring fez uma luta de jiu-jitsu com o Cássio Cardoso na Lagoa. Depois disso o Rílion veio falar comigo sobre o Eugênio e o Eugênio perguntou o que ele queria e eles quase brigaram ali mesmo. O Rílion disse que ele havia faltado com o respeito e ele falou que não tinha nada disso e os dois começaram a discutir. Isso dentro do evento de jiu-jitsu com o Eugênio fazendo base de luta. Como se fosse preparar para botar na guarda (risos).

Teve uma história que você foi convidado uma vez pra dar um treino no Carlson ?

O Carlson é um cara que eu não posso falar nada dele. Nós tivemos nossos problemas, mas ele é um cara homem. Ele jogava limpo, tanto que esta vez que fui à academia dele e ele agiu como um homem comigo. Eu entrei lá e fui convidado pelo Rosado a ir à praia para dar um treino.

Você sabia que era roubada?

Eu sabia, mas queria passar uma adrenalina. Estavam eu e o Gérson e eles disseram para treinarmos e que não teria problema. Falou que seria sem quimono e eu disse que dessa forma eu iria.

Você já tinha lutado de quimono?

Já tinha sim. Eles falaram para eu ir lá que teria meu nome. Eu perguntei quando era e eles disseram que eram nas terças e quintas. Eu falei para o Gérson que iria e ele disse para eu não ir e que eu estava louco. Eu falei para ele que queria sentir uma adrenalina e que seria maneiro.

Você era tão fissurado para lutar que aceitava qualquer coisa?

Não tinha luta, então tinha de ser nas academias. Eu falei que ia na terça, mas não fui e resolvi ir na quinta. Quando eu subi as escadas da academia, os caras ficaram me olhando. Eu cheguei lá e eles me perguntaram por que eu não havia ido na terça já que tinha marcado. Eles disseram que naquele dia tinha pouca gente, mas eu vi uns vinte e eu pergunte se aquilo era pouca gente. Ele perguntou se estava tudo bem e se eu havia levado o quimono. Eu disse que nós havíamos combinado sem quimono e ele disse que seu eu lutasse sem quimono poderiam achar que eu era da luta – livre e que podiam achar que eu tinha ido lá para fazer um desafio. Ele me deu um quimono e disse para eu botar para não ficar um clima ruim. No vestiário as pessoas ficaram olhando já que ali só tinha gente com quimono e eu estava de sunga. Ele disse que luta – livre contra jiu-jitsu ia ser legal e eu disse que tudo bem. Quando eu cheguei ao tatame já tinha um cara gigante chamado Bráulio. O cara era até gente fina, era um faixa marrom. Eu rolei com o cara na força, na galega e o cara não me pegava. Isso sem eu conhecer quimono. Eu estava indo na força bruta e o Carlson chegou falando para parar. Foi ele quem me salvou, pois dali ia ser um atrás do outro. Falou para parar e que seria sem quimono. Depois ele disse para eu ficar lá e chamou um grandão chamado Caíque. Falou que só lutaria os graduados e que não queria que fosse daquela forma. Ele me levou para outra sala, enquanto poderia ter me fudido. Com aquela galera ali, se ele não chegasse ia complicar.

Você já estava cansado, ele poderia pegar um cara mais duro na sequência e depois a história seria que você foi escovado facilmente na Carlson…

É isso mesmo. Aí fui eu lutar com o Caíque. Estava eu na guarda dele e ele já havia lutado sem quimono. Ele era mais pesado que eu e eu pensei em dar uma chave de pé. Quando ele abriu a guarda eu segurei no pé dele. Eu era um bicho de pé do caralho. Ele gritou para eu pegar o pé e o cara me deu um chutão. Ele deu um toque pra mim, mas eu senti a malandragem dele, que na verdade estava dando um alerta pro cara.

Era como se ele estivesse dizendo pro cara que você pegava pé e ele estava dando mole.

Quando ele abriu a guarda e deu mole com o pé, dando chance pra raspada, o Carlson gritou. Depois disso, o cara fechou a guarda e trancou. O cara era forte pra caralho e depois disso ninguém pegou ninguém. O Carlson ficou conversando comigo e pediu meu telefone. Estavam todos lá, o Cassio Cardoso que era o mais graduado e também o Rosado. Eles falaram pra trinarmos outro dia, mas naquele não treinaram. Eles eram os bichos papões, mas não treinaram. Para você ver, nessa época o Libório era faixa azul. Isso já tem muito tempo.

ruas varelansE o início do UFC, o que você lembra do seu início e da sua chegada lá? Como foi aquela história que você estava na praia meio desanimado e mudou tudo?

Isso é antigo. Eu estava ali, pois estava tentando coisa. Depois da luta com o Pinduka eu não tinha conseguido mais nada. Eu queria lutar e estava tentando algo. Eu ouvia os comentários sobre o Fábio Gurgel que tinha saído na Manchete. Eu tentei isso, mas não deu em nada. O Fábio Gurgel foi à manchete e lançou um desafio dizendo que estava lá para provar que o jiu-jitsu era a melhor luta. Eu fiquei empolgado, pois aquela era minha chance de fazer uma luta. Eu fui à Manchete e disse que estava lá para aceitar o desafio do Fábio Gurgel e disse que na hora que fechasse patrocinador, eu estaria pronto para fazer essa luta. Não rolou nada e dali eu já estava no Oswaldo Alves. Ali surgiu aquele clima horrível.

Foi quando a comunidade do Jiu-Jitsu caiu de pau no Oswaldo Alves por te treinar ?

Isso. Teve aquela confusão toda e diziam que o Fábio Gurgel, o Murilo e não sei quem mais iriam me matar. Ninguém matou ninguém e não surgiu luta nenhuma. Ficou só no papo e no desafio. Se eu tivesse feito essas lutas, eu estaria com um cartel enorme. Eu fiquei inibido com isso e estava no Oswaldo quando falei do Fábio Gurgel, mas não desrespeitei ninguém em nenhum momento. Eu falei que estava pronto para aceitar o desafio dele, mas não estava ofendendo ele. Não era nada pessoal. Eu até gosto do Fábio Gurgel. O Carlson Gracie foi ao Oswaldo Alves e falou que ia fechar a academia dele e tomar a faixa preta dele. Eu estava de manhã lá em casa e toca o interfone. Era algo em torno das 6 da manhã. Era o Oswaldo Alves com um juiz de direito e o Fred Bomba. Diziam que eu teria que ir lá à televisão admitir que aquilo não tinha nada a ver com o Oswaldo e que ele estava arrasado, inclusive tinha chorado e que o Carlson ia tirar a faixa dele. Eu disse que não era isso e que nem tinha tocado no nome dele. Falaram que eu tinha que ir lá que eles achavam que ele estava me preparando para um confronto com o jiu-jitsu. Outra coisa que eu me decepcionei foi o professor Oswaldo Alves. Ele era um mestre pra mim, foi quem me iniciou e tinha faixa vermelha e preta. Na hora H ele fala que não está comigo. Eu já o representei em Manaus duas vezes e uma vez chegue até a lutar na academia dele com um cara de quimono que conhecia muito pouco. O cara treinava com o Ezequiel Paraguassu. Eu fui umas três vezes só no pé do cara. Eu o escutava e ele me pediu pra dizer que eu estava com ele. O que aconteceu foi que eu fui para o UFC 7 e encontrei ele lá nos Estados Unidos e ele me disse para falar que eu treinava com ele. Eu disse pra ele que ele havia falado uma vez para eu dizer que não era aluno dele. Aí eu pensei, agora é fácil falar. Pra você ver como as coisas mudam. Eu passei por cada coisa. Essas coisas de voltar atrás e muitas outras loucas. Tem coisa que não dá para entender. É impressionante ver como estão as coisas hoje em dia, como elas mudaram.

Você estava lá no Leme achando que não ia dar mais e acontece tudo isso. Hoje em dia você está aqui com sua família bem.

Isso é coisa de deus. Não tinha mais competição.

Você chegou a pensar em desistir?

Eu pensei em desistir mesmo que quisesse viver disso. Eu já estava com uma filha e ficava complicado. Hoje eu tenho três filhos. Eu ficava pensando que não teria dinheiro e que eu estava treinando que nem um louco, me dedicando e todo sábado lá pra nada. Não dava nem para pagar as contas.

Você teve alguma proposta de trabalho, alguém que quisesse te dar uma oportunidade em outra área que chegou a te balançar?

Na verdade era mais aula mesmo, eu trabalhava dando aula. Eu tinha até mercado, mas passava a maior parte do tempo treinando visando alguma luta. Eu queria lutar, mas não pintava. Hoje eu dedico a maior parte do meu tempo a dar aula.

Chegou a fazer trabalho de segurança?

Fazia trabalho de segurança, propagandas, dentre outras coisas. Eu ia para Hipopótamos fazer segurança e tinha de fazer outros bicos, ou seja, eu não tinha final de semana livre. Eu ficava pensando comigo mesmo para esquecer as lutas e que isso não ia dar em nada. Quando eu tava na praia pensando nisso, passa um cara que me diz que arrumaram um telefone para eu ligar sobre lutas. Eles tinham uma luta para mim nos Estados Unidos. Era um cara que eu nunca tinha visto. Ele chegou pra mim e perguntou se eu não era o Marco Ruas e disse que o falecido Jara tinha pedido para eu ligar praquele número que ele tinha uma luta pra mim. Eu nem sabia quem era o Jara. Ele falou que era o Marcos Jara e que era o primo dele. Ele disse que era para eu ligar. Eu liguei e disseram que tinha passado pelo Lacerda, ou seja, tinha até erro de passagem. Eu queria uma oportunidade para lutar e aquela poderia ser a última chance. Eu liguei e já tinha passado pelo Lacerda. Eles me disseram que iam me colocar em um evento que estava entre eu e o Renzo. O cara falou que ia me colocar, que eu estava me demonstrando interessado e que era para eu treinar. Eu fiquei feliz que tinha fechado, era uma grana boa e eram três lutas, mas o Róbson Gracie colocou areia e eles colocaram o Renzo e ele ganhou. Não me deixaram entrar no torneio e me tiraram, mas disseram que não tinha problema e que o Art Davis ia me colocar e que ele gostava de mim.

RUAS 3O UFC já era conhecido?

Já era conhecido. Eu fui convidado e fui à festa do UFC. Falaram-me que o Davis gostava muito de mim e que há muito tempo que ele queria me colocar para lutar. Eles traduziram pra mi e eu não acreditei. Eles disseram que eu era o cara da vez. Nesse momento quem estava negociando era o Lapenda. Rolou essa festa e eu fui convidado pra dar entrevista.

Você e o Lapenda terminaram meio mal. Hoje em dia o que você sente por ele?

Se você quer saber, eu não sinto nem um pouco de raiva. Sou até grato a ele por muitas coisas. Quando eu era mais novo eu era mais explosivo, mais estourado. Hoje em dia eu volto atrás. Tudo bem que o cara errou comigo, mas também me deu várias chances. O que eu mais senti foi que eu tinha um grande carinho por esse cara. Eu gostava muito dele. Sabe quando você gosta de uma pessoa e sente uma energia. Então, eu gostava dele como se fosse um irmão. Ele me deu essa facada e eu fiquei abalado. Mas passou.

Você começou com que idade? Hoje já são 30 anos de lutas?

Eu vou te dar mais ou menos um parecer para não dizerem que eu estou mentindo. Eu não esqueço nada. Foi em 77, isso tem 33 anos. Hoje estou com 49, ou seja, desde meus 16 anos.

Sua mulher também é uma guerreira, ele pegou todas essas fases complicadas.

Ela sabe de tudo e de todas as datas.

E passou todas essas dificuldades com filho para criar.

Se você quer saber, ela que controla tudo. É ela que controla meu dinheiro. Ela guarda desde o UFC 7. Ela guarda um pouco, economiza ali e faz toda contabilidade. Ela faz tudo.

IMG_3103E suas filhas hoje. Quais os nomes e as idades? Qual o nome da sua esposa?

O nome dela é Luciana. Minha filha mais velha tem 25 anos e vai casar. Eu já sou avô, já tem essa. A Luana tem 23 anos, casou e tem uma filinha chamada Isabela. Tem ainda meu xodó que hoje em dia é a Juliana.  Ela é a mais novinha e a mais carente. Nós moramos aqui e aqui é bem diferente do Brasil. Agora eu já me acostumei, mas eu chorei muito quando me mudei pra cá. Eu me acostumei com isso de não ver ninguém na rua e não ter nenhum carro. Minhas filhas são muito carentes, pois não têm muito contato com gente. O contato é a família só.

Como é o Marco Ruas quando chega o namorado? Deve ser um pai ciumento pra caramba.

Eu sou meio chato. A mais velha tem um namorado que á praticamente mudo, ele não fala. O cara queria treinar, mas não tem jeito para lutador. Ele foi fazer um treino e até vomitou. A minha mulher me controla porque eu não gosto muito de ver em casa. Eu tenho certa implicância. Eu sou meio chato, mas não sei o porquê. Minha mulher diz que é boa pessoa, que gosta da minha filha, é trabalhador, mas não consigo levar muito na boa.

Os namorados são brasileiros ou americanos?

São americanos. Todos são americanos. O outro, que eu chamo de mudo, veio outro dia pedir a mim minha filha em casamento. O cara é um vara pau e não fala. Ele bateu na porta e eu nem sabia. A que vai casa é a mais velha, vai ser em outubro.

Ele te pegou em um dia bom ou ruim?

Ele me pegou num dia bom. Eu estava em casa e os cães começaram a latir. Quando eu abri a porta era o mudo. Perguntei pra ele o que era e o que ele queria comigo. Aí ele disse que queria pedir a mão da mina filha em casamento. Eu falei pra ele o que era aquilo e ele disse que gostava muito dela e que queria minha autorização. Falei pra ele que tinha achado ele valente e gostado da atitude (risos). Falei que tinha gostado da atitude dele e ele me quebrou com isso. O que casou com a irmã me mandou uma carta, uma carta enorme me pedindo autorização. Ele não teve coragem de vir falar. O cara tem uma casa bonita, um carro bonito, mas não veio falar. Já o mudo resolveu vir.

Você sente esse reconhecimento hoje?

Hoje em dia está surgindo cada vez mais garotada e o cara nem lembra quem foi Marco Ruas. Isso ocorreu há 14/15 anos atrás. Está cada vez chegando uma garotada mias nova e a cada ano que passa surge novos talentos. A não ser que os caras estudem. Se você for ver, hoje tem tudo no youtube. A história, se você procurar acaba achando. Se o cara tem interesse no esporte e em como ele surgiu, ele vai acabar sabendo. Se eu tiver interesse no boxe, eu saberei quem foi o primeiro campeão. Depois ele vai pesquisar quem veio em seguida, saber que teve o Cassius Clay e daí por diante. O cara que procurar vai achar.

Se fizessem esse confronto entre os veteranos do MMA, você aceitaria se tivesse uma proposta muito boa e para terminar a carreira lutando com o Rickson ou qualquer outra luta?

Eu aceitaria. Eu posso te dizer que não é uma coisa que eu busco, eu não busco isso. Apesar disso, seria interessante. As pessoas acham que seria complicado um cara de 49 anos lutar e eu acho que seria interessante provar que é possível. Eu posso até lutar e conseguir luta, mas não é uma coisa que eu vou buscar. Mesmo assim, se uma proposta vier para mim é claro que eu vou aceitar. Ia ser algo interessante e que eu acho que poderia até mudar minha vida. Se viesse a mim isso com uma proposta boa seria interessante.

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